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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/11/2017

22 de Novembro de 2017

Arte sem Beleza

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18/10/2017 18:16 - Atualizado em 18/10/2017 18:16

Arte sem Beleza 0

18/10/2017 18:16 - Atualizado em 18/10/2017 18:16

Nas últimas semanas, a peça teatral O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu e a exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira provocaram uma série de manifestações em diversas partes do país.  De autoria da dramaturga britânica Jo Clifford (1950), a peça teatral apresenta Jesus Cristo como mulher transgênero, situação que provocou a reação de diversos setores, sobretudo religiosos. A exposição também[U1]  recebeu não poucas reações, uma vez que foi interpretada como apologia à pedofilia e à zoofilia. Tanto[U2]  os defensores da peça teatral quanto da exposição argumentaram que a arte provoca reflexões, debates e denuncia situações pelas quais a sociedade está passando.

A relação entre arte e sociedade é real e desejável; porém, não se pode torná-la absoluta a ponto de negligenciar aspectos importantes como a beleza. Uma das primeiras considerações sobre o belo encontra-se em Platão (428/427-348/347). O belo, sempre acompanhado do bem, é contemplado em sua perfeição. Ambos aparecem como universais e absolutos. A Beleza Suprema confere a todos os objetos particulares um pálido reflexo. Essa teoria do belo não se volta para a percepção sensorial, mas para a sua superação.

Aristóteles (384-322), ao contrário, considerava o belo como inerente ao homem e a arte, uma criação humana; por isso, não pode estar distante e separada daquilo que é sensível ao homem.  A beleza de uma obra de arte é verificada mediante critérios,como proposição, simetria e ordenação, tudo em sua justa medida. Nesse sentido, a arte imitaria a natureza e  completaria aquilo que ela não terminou.

Já o alemão Immanuel Kant (1724-1804) considerou[U3]  a beleza como “o que agrada desinteressadamente”. Essa visão nos mostra o caráter gratuito, desinteressado e livre da beleza. A arte, como expressão da beleza, agrada. Se a arte não agradar, evidencia-se o seu distanciamento da beleza.Algo é belo, não pelo fato de que tenha interesse para mim, mas é belo na sua perfeita separação de mim, dos meus pressupostos e interesses. É, justamente, a separação que permite objetividade ao conhecimento.

A exposição e a peça teatral não conseguiram despertar na maioria das pessoas as reflexões que gostariam justamente porque não evidenciaram a sua relação com a beleza. Ambas não conseguiram seus objetivos porque não cuidaram da eticidade dos meios. Não é demais repetir que fins bons exigem, necessariamente, meios bons.

A exposição me fez pensar em Hannah Arendt (1906-1975) que[U4]  nos diz que “é preciso proteger o mundo das crianças e as crianças do mundo”. A peça teatral e a exposição trouxeram, também, para discussão a pessoa de Jesus Cristo; por isso, considero importante distinguir a beleza do ser criado e a beleza divina. A beleza divina é entendida, pela teologia, como glória, esplendor do próprio Deus. A percepção originária de Deus não pode ser outra coisa senão a percepção da sua glória: Deus vem, antes de tudo, não como mestre, não como redentor com tantas consequências para nós; mas para se mostrar e irradiar a glória do seu eterno amor naquela “ausência de interesse”, que o verdadeiro amor tem em comum com a verdadeira beleza.

Em razão disso, a “ausência de interesse” é fundamental para a percepção estética. Para amar a Deus e compreender que o mundo fora criado para a sua Glória, devemos fazer uma abordagem estética da Divindade. A glória de Deus se nos revela na figura concreta (a Gestalt) de Jesus Cristo. Sua beleza ultrapassa a análise, tanto dos elementos quanto das relações entre esses elementos. Vai além de toda tentativa de redução à soma dos elementos, uma vez que a figura possui um centro transcendente, que constitui o conceito de Gestalt. Diante da figura de Jesus Cristo se verifica que o todo ultrapassa a soma das partes e conduz ao mistério a pessoa que contempla a beleza na arte. Certamente, a peça teatral e a exposição não conseguiram levar os cristãos a essa percepção.

Paradoxalmente, o mistério da beleza também está presente em uma sociedade marcada pelo preconceito, pela exclusão, pela violência, pela maldade, pela miséria. A consciência da negatividade do mundo não impede de nos empenharmos politicamente pela sua superação e nem descobrir e contemplar sua beleza. Para isso, não há necessidade de escandalizar os pequeninos (Cf. Mt 18,6). Apesar de toda negatividade, este continua a ser um belo mundo.

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Arte sem Beleza

18/10/2017 18:16 - Atualizado em 18/10/2017 18:16

Nas últimas semanas, a peça teatral O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu e a exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira provocaram uma série de manifestações em diversas partes do país.  De autoria da dramaturga britânica Jo Clifford (1950), a peça teatral apresenta Jesus Cristo como mulher transgênero, situação que provocou a reação de diversos setores, sobretudo religiosos. A exposição também[U1]  recebeu não poucas reações, uma vez que foi interpretada como apologia à pedofilia e à zoofilia. Tanto[U2]  os defensores da peça teatral quanto da exposição argumentaram que a arte provoca reflexões, debates e denuncia situações pelas quais a sociedade está passando.

A relação entre arte e sociedade é real e desejável; porém, não se pode torná-la absoluta a ponto de negligenciar aspectos importantes como a beleza. Uma das primeiras considerações sobre o belo encontra-se em Platão (428/427-348/347). O belo, sempre acompanhado do bem, é contemplado em sua perfeição. Ambos aparecem como universais e absolutos. A Beleza Suprema confere a todos os objetos particulares um pálido reflexo. Essa teoria do belo não se volta para a percepção sensorial, mas para a sua superação.

Aristóteles (384-322), ao contrário, considerava o belo como inerente ao homem e a arte, uma criação humana; por isso, não pode estar distante e separada daquilo que é sensível ao homem.  A beleza de uma obra de arte é verificada mediante critérios,como proposição, simetria e ordenação, tudo em sua justa medida. Nesse sentido, a arte imitaria a natureza e  completaria aquilo que ela não terminou.

Já o alemão Immanuel Kant (1724-1804) considerou[U3]  a beleza como “o que agrada desinteressadamente”. Essa visão nos mostra o caráter gratuito, desinteressado e livre da beleza. A arte, como expressão da beleza, agrada. Se a arte não agradar, evidencia-se o seu distanciamento da beleza.Algo é belo, não pelo fato de que tenha interesse para mim, mas é belo na sua perfeita separação de mim, dos meus pressupostos e interesses. É, justamente, a separação que permite objetividade ao conhecimento.

A exposição e a peça teatral não conseguiram despertar na maioria das pessoas as reflexões que gostariam justamente porque não evidenciaram a sua relação com a beleza. Ambas não conseguiram seus objetivos porque não cuidaram da eticidade dos meios. Não é demais repetir que fins bons exigem, necessariamente, meios bons.

A exposição me fez pensar em Hannah Arendt (1906-1975) que[U4]  nos diz que “é preciso proteger o mundo das crianças e as crianças do mundo”. A peça teatral e a exposição trouxeram, também, para discussão a pessoa de Jesus Cristo; por isso, considero importante distinguir a beleza do ser criado e a beleza divina. A beleza divina é entendida, pela teologia, como glória, esplendor do próprio Deus. A percepção originária de Deus não pode ser outra coisa senão a percepção da sua glória: Deus vem, antes de tudo, não como mestre, não como redentor com tantas consequências para nós; mas para se mostrar e irradiar a glória do seu eterno amor naquela “ausência de interesse”, que o verdadeiro amor tem em comum com a verdadeira beleza.

Em razão disso, a “ausência de interesse” é fundamental para a percepção estética. Para amar a Deus e compreender que o mundo fora criado para a sua Glória, devemos fazer uma abordagem estética da Divindade. A glória de Deus se nos revela na figura concreta (a Gestalt) de Jesus Cristo. Sua beleza ultrapassa a análise, tanto dos elementos quanto das relações entre esses elementos. Vai além de toda tentativa de redução à soma dos elementos, uma vez que a figura possui um centro transcendente, que constitui o conceito de Gestalt. Diante da figura de Jesus Cristo se verifica que o todo ultrapassa a soma das partes e conduz ao mistério a pessoa que contempla a beleza na arte. Certamente, a peça teatral e a exposição não conseguiram levar os cristãos a essa percepção.

Paradoxalmente, o mistério da beleza também está presente em uma sociedade marcada pelo preconceito, pela exclusão, pela violência, pela maldade, pela miséria. A consciência da negatividade do mundo não impede de nos empenharmos politicamente pela sua superação e nem descobrir e contemplar sua beleza. Para isso, não há necessidade de escandalizar os pequeninos (Cf. Mt 18,6). Apesar de toda negatividade, este continua a ser um belo mundo.

Autor

Prof. Paulo César de Oliveira