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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/11/2017

22 de Novembro de 2017

Arte e ética

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Arte e ética 0

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A discussão sobre arte, sua definição e presença na vida das pessoas, nos remete necessariamente a uma análise da ética. Diante dessa afirmativa, apresentaremos aqui a relação entre essas duas constantes de grande importância na vida de todo ser humano. O ser humano não nasce pronto nem é determinado por instintos, pelo contrário, se aperfeiçoa sem cessar e expressa as suas habilidades máximas por variados meios. Arte é o termo latino que traduz a palavra grega teknes, um vocábulo com sentido diferente de técnica na nossa e em outras línguas, e que tem o significado de habilidades superiores humanas. Arte é a manifestação do que há de mais perfeito no ser humano, o sublime da pessoa. Arte é a expressão do ser humano em sua perfeição enquanto ser humano, isto é, o contínuo aprimoramento, na medida em que se sabe que não há ninguém que atinja um estado no qual esteja perfeito. A partir deste conceito, podemos entender que arte é uma atividade específica ao ser humano. Somente o ser humano é capaz de criar. Isto se explica pelo fato de que arte envolve, de maneira indispensável, reflexão e emoção. A capacidade intelectual do raciocínio em suas formas mais elaboradas e a condição de se ligar pela contemplação emotiva ao mundo somente são encontradas nas pessoas, e mais ainda, naquelas que já passaram por uma história de vida e se encontram em um momento fortalecido do longo trajeto de experiências, aprendizagens e construção de seu próprio eu. Está na essência do ser humano se voltar para o deslumbramento, a indagação e a surpresa, vivendo a inquietação e procurando o equilíbrio. A inteligência racional abstrata, lógica, hipotética dedutiva, privativa do ser humano é que lhe permite transcender os planos de respostas a estímulos. Entende-se que arte é criação exclusiva do ser humano. Toda pessoa é um artista e cria a partir do que observa e interioriza, em uma intrínseca organização de seus dons e talentos peculiares com a tradição da sociedade e os conhecimentos e sabedoria da Humanidade. Algumas pessoas têm potencial para uma faceta da arte, enquanto há os que se inclinam para outras áreas e diferentes aspectos. Desde os tempos pré-históricos, o ser humano vem deixando marcas de sua identidade criativa em variadas modalidades. Estuda-se com frequência o exemplo de Mozart e sua música maravilhosa, sem, contudo, se chegar a uma conclusão. Sabe-se que há uma capacidade própria inicial e que recebeu instrução adequada e exigente por parte de seu pai. É do mais íntimo de cada um, do interior de cada pessoa, que surge uma centelha que precisa ser trabalhada e transformada em arte com ética. Não há uma realização artística inata, nem se considera arte algo que se distancia da dignidade humana, do respeito e das virtudes. Ninguém nasce com o instrumental que deve ser unido às suas possibilidades para que faça arte. As ferramentas que serão utilizadas pelas pessoas, desde a linguagem oral a todo o arsenal acumulado por séculos de civilização, precisam ser ensinadas às novas gerações. Cada criança ou jovem deve ser iniciado nas conquistas de pessoas que os antecederam e realizar a aquisição do acervo mundial referente à produção da arte. A cultura é o conjunto resultante de adições e transformações do que é considerado de valor por um povo e não um acervo qualquer ou algo que simplesmente vem do passado. O mesmo acontece com a ética, ou seja, tudo aquilo que há de melhor no ser humano e representa a vida pela excelência, palavra mais comumente conhecida como virtude. Ninguém nasce ético. Ética se aprende e para isso é preciso que sejam apresentadas às crianças, desde muito novas ainda no primeiro ano de vida, as virtudes. A prática das virtudes é uma aquisição pela vivência de cada uma delas até que se tornem parte integrante da pessoa. Aprende-se pela prática amizade, justiça, generosidade, temperança, perseverança, coragem, honestidade e prudência. Aprende-se por meio de pais, em primeiro lugar, professores e outros agentes comprometidos com essa tarefa. Isto é o que se chama a heteronomia, que se define como a acolhida de regras, princípios, ensinamentos e ideias, que são apresentadas por pessoas responsáveis. Somente depois da juventude é que o sujeito chega à autonomia, fase em que não precisa mais de alguém a seu lado para lhe dizer o que é certo, o que é o belo, o bom e o verdadeiro. Se uma criança e um adolescente foram educados nas virtudes e na arte, se aproveitaram bem do período da heteronomia, essas pessoas não farão uma falsa arte, não criarão elementos agressivos e profanadores, pois chegaram à plenitude da autonomia. A autonomia é a culminância do processo educativo que por sua própria natureza é uma atividade assim ética e se desenvolve dentro da heteronomia. O educando é a razão de ser da educação, seja da educação para a arte ou para a ética, mas não sabe ainda escolher, traçar caminhos, enveredar pelo desconhecido sem o auxílio do educador. Uma vez alcançado o patamar das capacidades construídas, da personalidade solidamente estabelecida, do sentido ético, o sujeito passa a assumir o comando de sua vida e fará adequadamente suas opções, agirá com respeito ao outro e produzirá a verdadeira arte ao mesmo tempo em que será uma pessoa ética. O ser humano existe para o belo, o bom e o verdadeiro, e somente os encontra na arte relacionada à ética. Pode-se afirmar que a arte é a excelência do ser humano que busca incansavelmente o bom, o belo e o verdadeiro em uma perspectiva universal, de toda a Humanidade. Sabendo-se que excelência é o significado original da palavra virtude, chegamos inevitavelmente à articulação entre arte e ética. Há características fundamentais no ser humano que lhes dão as bases para a arte e a ética, dentre as quais se destacam, além do raciocínio e da emoção, já citados, a liberdade e a vontade, que também são correlacionadas às duas primeiras. Ninguém dá liberdade ao ser humano, porém a criança ainda não sabe viver a liberdade, pois esta exige raciocínio que lhe permite o discernimento e o julgamento. A decisão livre é premissa do ser humano que já passou por uma formação, é consciente, e por isso se encontra capaz de um comprometimento com suas ações. Liberdade não é fazer o que se deseja. A vontade é inteiramente diversa do desejo, na medida em que a vontade é livre e racional e se propõe objetivos e finalidades. Criança não tem ainda a vontade desenvolvida. A arte extasia o ser humano que reconhece o valor das virtudes, isto é, a ética, como indispensável à vida em sua plenitude.

Prof. Dra. Maria Judith Sucupira da Costa Lins

Coordenadora de pesquisa do Grupo de Pesquisa em Ética e Educação GPEE/UFRJ

Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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10/11/2017 19:25 - Atualizado em 10/11/2017 19:27

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A discussão sobre arte, sua definição e presença na vida das pessoas, nos remete necessariamente a uma análise da ética. Diante dessa afirmativa, apresentaremos aqui a relação entre essas duas constantes de grande importância na vida de todo ser humano. O ser humano não nasce pronto nem é determinado por instintos, pelo contrário, se aperfeiçoa sem cessar e expressa as suas habilidades máximas por variados meios. Arte é o termo latino que traduz a palavra grega teknes, um vocábulo com sentido diferente de técnica na nossa e em outras línguas, e que tem o significado de habilidades superiores humanas. Arte é a manifestação do que há de mais perfeito no ser humano, o sublime da pessoa. Arte é a expressão do ser humano em sua perfeição enquanto ser humano, isto é, o contínuo aprimoramento, na medida em que se sabe que não há ninguém que atinja um estado no qual esteja perfeito. A partir deste conceito, podemos entender que arte é uma atividade específica ao ser humano. Somente o ser humano é capaz de criar. Isto se explica pelo fato de que arte envolve, de maneira indispensável, reflexão e emoção. A capacidade intelectual do raciocínio em suas formas mais elaboradas e a condição de se ligar pela contemplação emotiva ao mundo somente são encontradas nas pessoas, e mais ainda, naquelas que já passaram por uma história de vida e se encontram em um momento fortalecido do longo trajeto de experiências, aprendizagens e construção de seu próprio eu. Está na essência do ser humano se voltar para o deslumbramento, a indagação e a surpresa, vivendo a inquietação e procurando o equilíbrio. A inteligência racional abstrata, lógica, hipotética dedutiva, privativa do ser humano é que lhe permite transcender os planos de respostas a estímulos. Entende-se que arte é criação exclusiva do ser humano. Toda pessoa é um artista e cria a partir do que observa e interioriza, em uma intrínseca organização de seus dons e talentos peculiares com a tradição da sociedade e os conhecimentos e sabedoria da Humanidade. Algumas pessoas têm potencial para uma faceta da arte, enquanto há os que se inclinam para outras áreas e diferentes aspectos. Desde os tempos pré-históricos, o ser humano vem deixando marcas de sua identidade criativa em variadas modalidades. Estuda-se com frequência o exemplo de Mozart e sua música maravilhosa, sem, contudo, se chegar a uma conclusão. Sabe-se que há uma capacidade própria inicial e que recebeu instrução adequada e exigente por parte de seu pai. É do mais íntimo de cada um, do interior de cada pessoa, que surge uma centelha que precisa ser trabalhada e transformada em arte com ética. Não há uma realização artística inata, nem se considera arte algo que se distancia da dignidade humana, do respeito e das virtudes. Ninguém nasce com o instrumental que deve ser unido às suas possibilidades para que faça arte. As ferramentas que serão utilizadas pelas pessoas, desde a linguagem oral a todo o arsenal acumulado por séculos de civilização, precisam ser ensinadas às novas gerações. Cada criança ou jovem deve ser iniciado nas conquistas de pessoas que os antecederam e realizar a aquisição do acervo mundial referente à produção da arte. A cultura é o conjunto resultante de adições e transformações do que é considerado de valor por um povo e não um acervo qualquer ou algo que simplesmente vem do passado. O mesmo acontece com a ética, ou seja, tudo aquilo que há de melhor no ser humano e representa a vida pela excelência, palavra mais comumente conhecida como virtude. Ninguém nasce ético. Ética se aprende e para isso é preciso que sejam apresentadas às crianças, desde muito novas ainda no primeiro ano de vida, as virtudes. A prática das virtudes é uma aquisição pela vivência de cada uma delas até que se tornem parte integrante da pessoa. Aprende-se pela prática amizade, justiça, generosidade, temperança, perseverança, coragem, honestidade e prudência. Aprende-se por meio de pais, em primeiro lugar, professores e outros agentes comprometidos com essa tarefa. Isto é o que se chama a heteronomia, que se define como a acolhida de regras, princípios, ensinamentos e ideias, que são apresentadas por pessoas responsáveis. Somente depois da juventude é que o sujeito chega à autonomia, fase em que não precisa mais de alguém a seu lado para lhe dizer o que é certo, o que é o belo, o bom e o verdadeiro. Se uma criança e um adolescente foram educados nas virtudes e na arte, se aproveitaram bem do período da heteronomia, essas pessoas não farão uma falsa arte, não criarão elementos agressivos e profanadores, pois chegaram à plenitude da autonomia. A autonomia é a culminância do processo educativo que por sua própria natureza é uma atividade assim ética e se desenvolve dentro da heteronomia. O educando é a razão de ser da educação, seja da educação para a arte ou para a ética, mas não sabe ainda escolher, traçar caminhos, enveredar pelo desconhecido sem o auxílio do educador. Uma vez alcançado o patamar das capacidades construídas, da personalidade solidamente estabelecida, do sentido ético, o sujeito passa a assumir o comando de sua vida e fará adequadamente suas opções, agirá com respeito ao outro e produzirá a verdadeira arte ao mesmo tempo em que será uma pessoa ética. O ser humano existe para o belo, o bom e o verdadeiro, e somente os encontra na arte relacionada à ética. Pode-se afirmar que a arte é a excelência do ser humano que busca incansavelmente o bom, o belo e o verdadeiro em uma perspectiva universal, de toda a Humanidade. Sabendo-se que excelência é o significado original da palavra virtude, chegamos inevitavelmente à articulação entre arte e ética. Há características fundamentais no ser humano que lhes dão as bases para a arte e a ética, dentre as quais se destacam, além do raciocínio e da emoção, já citados, a liberdade e a vontade, que também são correlacionadas às duas primeiras. Ninguém dá liberdade ao ser humano, porém a criança ainda não sabe viver a liberdade, pois esta exige raciocínio que lhe permite o discernimento e o julgamento. A decisão livre é premissa do ser humano que já passou por uma formação, é consciente, e por isso se encontra capaz de um comprometimento com suas ações. Liberdade não é fazer o que se deseja. A vontade é inteiramente diversa do desejo, na medida em que a vontade é livre e racional e se propõe objetivos e finalidades. Criança não tem ainda a vontade desenvolvida. A arte extasia o ser humano que reconhece o valor das virtudes, isto é, a ética, como indispensável à vida em sua plenitude.

Prof. Dra. Maria Judith Sucupira da Costa Lins

Coordenadora de pesquisa do Grupo de Pesquisa em Ética e Educação GPEE/UFRJ

Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro