Arquidiocese do Rio de Janeiro

37º 25º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/12/2018

13 de Dezembro de 2018

Alegrai-vos e exultai – Alegria, ousadia, discernimento

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13 de Dezembro de 2018

Alegrai-vos e exultai – Alegria, ousadia, discernimento

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09/04/2018 08:23 - Atualizado em 09/04/2018 08:23

Alegrai-vos e exultai – Alegria, ousadia, discernimento 0

09/04/2018 08:23 - Atualizado em 09/04/2018 08:23

O Santo Padre, o Papa Francisco, em sua carta “Gaudete et Exsultate”, depois de tratar da santidade como convite a todos os seres humanos (cap. I), dos dois grandes perigos que cercam o caminho da via para ser santo: o gnosticismo e o pelagianismo (cap. II), propôs, ante os desafios da vida santa, as bem-aventuranças (cap. III). Aqui, apresenta algumas (mas não todas) as grandes características da santidade no mundo atual (cap IV) o que requer luta, vigilância e discernimento (cap. V), conforme veremos a seguir.

Fala o Papa: “Neste grande quadro da santidade que as bem-aventuranças e Mateus 25,31-46 nos propõem, gostaria de recolher algumas caraterísticas ou traços espirituais que, a meu ver, são indispensáveis para compreender o estilo de vida a que o Senhor nos chama. Não me deterei a explicar os meios de santificação que já conhecemos: os diferentes métodos de oração, os sacramentos inestimáveis da Eucaristia e da Reconciliação, a oferta de sacrifícios, as várias formas de devoção, a direção espiritual e muitos outros. Limitar-me-ei a referir alguns aspectos da chamada à santidade, que tenham – assim o espero – uma ressonância especial” (n. 110). Que pontos são apontados? – São cinco. Veremos, ainda que, de forma breve, quais são.

1) Suportação, paciência e mansidão: “A primeira destas grandes caraterísticas é permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta. A partir desta firmeza interior, é possível aguentar, suportar as contrariedades, as vicissitudes da vida e também as agressões dos outros, as suas infidelidades e defeitos: ‘se Deus é por nós, quem será contra nós?’ (Rm 8,31). Nisso está a fonte da paz que se expressa nas atitudes de um santo” (n. 112). “É preciso lutar e estar atentos às nossas inclinações agressivas e egocêntricas, para não deixar que ganhem raízes: ‘Podeis irar-vos, contanto que não pequeis. Não se ponha o sol sobre vossa ira’ (Ef 4,26)” (n. 114). “A firmeza interior, que é obra da graça, impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração. O santo não gasta as suas energias a lamentar-se dos erros alheios, é capaz de guardar silêncio sobre os defeitos dos seus irmãos e evita a violência verbal que destrói e maltrata, porque não se julga digno de ser duro com os outros, mas considera-os superiores a si próprio (Fl 2,3)” (n. 116). Mais: quem se alegra com o bem alheio expulsa o demônio de perto de si, diz o Papa, citando São João da Cruz (Cautelas, 13: Opere (Roma 41979), 1070, cf. n. 117). Suportar sofrer, de modo cruento ou incruento, é sinal de santidade (desde que não se confunda com fuga ou covardia) em vários aspetos, além do que ajuda o mundo a ser muito melhor no dia a dia (cf. n. 119).

2) Alegria e sentimento de humor. Não será preciso relembrar o adágio popular que diz: “Um santo triste é um triste santo” para dizer que a verdadeira alegria e o bom humor consiste em uma das marcas da santidade em todos os tempos, apesar da seriedade que o caminho rumo ao céu comporta. “O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança. Ser cristão é ‘alegria no Espírito Santo’ (Rm 14,17), porque, ‘do amor de caridade, segue-se necessariamente a alegria. Pois quem ama sempre se alegra na união com o amado. (...) Daí que a consequência da caridade seja a alegria’ (São Tomás de Aquino. Summa Theologiae, I-II, q. 70, a. 3). Recebemos a beleza da sua Palavra e abraçamo-la “em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo” (1Ts 1,6). Se deixarmos que o Senhor nos arranque da nossa concha e mude a nossa vida, então poderemos realizar o que pedia São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos!” (Fl 4,4)” (n. 122). Ainda: “O mau humor não é um sinal de santidade: ‘tira a angústia do teu coração e afasta o mal do teu corpo’ (Ecl 11,10). É tanto o que recebemos do Senhor ‘para nosso bom uso’ (1Tm 6,17), que às vezes a tristeza tem a ver com a ingratidão, com estar tão fechados em nós mesmos que nos tornamos incapazes de reconhecer os dons de Deus” (n. 126).

3) Ousadia e ardor: “‘Não tenhais medo!’ (Mc 6,50). ‘Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos’ (Mt 28,20). Estas palavras permitem-nos partir e servir com aquela atitude cheia de coragem que o Espírito Santo suscitava nos Apóstolos, impelindo-os a anunciar Jesus Cristo. Ousadia, entusiasmo, falar com liberdade, ardor apostólico: tudo isto está contido no termo parresia, uma palavra com que a Bíblia expressa também a liberdade de uma existência aberta, porque está disponível para Deus e para os irmãos (At 4,29; 9,28; 28,31; 2Cor 3,12; Ef 3,12; Hb 3,6; 10,19)” (n. 129). “Olhemos para Jesus! A sua entranhada compaixão não era algo que o ensimesmava, não era uma compaixão paralisadora, tímida ou envergonhada, como sucede muitas vezes conosco. Era exatamente o contrário: era uma compaixão que o impelia fortemente a sair de si mesmo a fim de anunciar, mandar em missão, enviar a curar e libertar. Reconheçamos a nossa fragilidade, mas deixemos que Jesus a tome nas suas mãos e nos lance para a missão. Somos frágeis, mas portadores de um tesouro que nos faz grandes e pode tornar melhores e mais felizes aqueles que o recebem. A ousadia e a coragem apostólica são constitutivas da missão” (n. 131).

4) Em comunidade: a salvação se dá por meio de Cristo na Igreja (= comunidade), nunca só. “A santificação é um caminho comunitário, que se deve fazer dois a dois. Reflexo disto temos em algumas comunidades santas. Em várias ocasiões, a Igreja canonizou comunidades inteiras, que viveram heroicamente o Evangelho ou ofereceram a Deus a vida de todos os seus membros. Pensemos, por exemplo, nos sete Santos Fundadores da Ordem dos Servos de Maria, nas sete Beatas religiosas do primeiro mosteiro da Visitação de Madrid, em São Paulo Míki e companheiros mártires no Japão, em Santo André Taegon e companheiros mártires na Coreia, em São Roque González, Afonso Rodríguez e companheiros mártires na América do Sul. E recordemos também o testemunho recente dos Beatos monges trapistas de Tibhirine (Argélia), que se prepararam juntos para o martírio. De igual modo, há muitos casais santos, onde cada cônjuge foi um instrumento para a santificação do outro. Viver e trabalhar com outros é, sem dúvida, um caminho de crescimento espiritual. São João da Cruz dizia a um discípulo: estás a viver com outros ‘para que te trabalhem e exercitem na virtude’ (Cautelas, 15: Opere (Roma 41979), 1072)” (n. 141). “Contra a tendência para o individualismo consumista que acaba por nos isolar na busca do bem-estar à margem dos outros, o nosso caminho de santificação não pode deixar de nos identificar com aquele desejo de Jesus: ‘que todos sejam um só, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti’ (Jo 17,21)” (n. 146).

5) A oração: “lembremos que a santidade é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de comunicar-se com Deus. É alguém que não suporta asfixiar-se na imanência fechada deste mundo e, no meio dos seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor. Não acredito na santidade sem oração, embora não se trate necessariamente de longos períodos ou de sentimentos intensos” (n. 147). Não é, no entanto, a oração uma fuga da realidade, mas, sim, um preparar-se melhor a fim de mais bem se inserir nela. Vem à mente do Papa o exemplo do Peregrino russo, que, vivendo em oração contínua, podia testemunhar Cristo no próximo: “quando me encontrava com as pessoas, parecia-me que eram todas tão amáveis como se fossem da minha própria família. (...) E a felicidade não só iluminava o interior da minha alma, mas o próprio mundo exterior aparecia-me sob um aspecto maravilhoso” (Relatos de um Peregrino Russo (Milão 31979), 41;129, cf. n. 152).

O capítulo V aborda a luta, a vigilância e o discernimento. Diz o Papa sobre o tema: “A vida cristã é uma luta permanente. Requer-se força e coragem para resistir às tentações do demônio e anunciar o Evangelho. Esta luta é magnífica, porque nos permite cantar vitória todas as vezes que o Senhor triunfa na nossa vida” (n. 158). Tal luta – contra o mundo e as más tendências – é muito mais contra o demônio.

Daí enfatizar o Papa: Não admitiremos a existência do demônio, se nos obstinarmos a olhar a vida apenas com critérios empíricos e sem uma perspectiva sobrenatural. A convicção de que este poder maligno está no meio de nós é precisamente aquilo que nos permite compreender por que, às vezes, o mal tem uma força destruidora tão grande. É verdade que os autores bíblicos tinham uma bagagem conceitual limitada para expressar algumas realidades e que, nos tempos de Jesus, podia-se confundir, por exemplo, uma epilepsia com a possessão do demônio. Mas isto não deve levar-nos a simplificar demasiado a realidade afirmando que todos os casos narrados nos Evangelhos eram doenças psíquicas e que, em última análise, o demônio não existe ou não intervém. A sua presença consta nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, que termina com a vitória de Deus sobre o demônio. De fato, quando Jesus nos deixou a oração do Pai-Nosso, quis que a concluíssemos pedindo ao Pai que nos livrasse do Maligno. A expressão usada não se refere ao mal em abstrato; a sua tradução mais precisa é ‘o Maligno’. Indica um ser pessoal que nos atormenta. Jesus ensinou-nos a pedir cada dia esta libertação para que o seu poder não nos domine” (n. 160). Para um verdadeiro progresso espiritual é preciso resistir, sempre, ao diabo. Estar com “as lâmpadas acesas” (Lc 12,35), vigilantes: “afastai-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,22); “vigiai” (Mt 24,42; cf. Mc 13,35); não adormeçamos (1Ts 5,6) (cf. n. 164).

Outro grande ponto é o discernimento. Ele não é algo intelectual, mas dom do Espírito Santo (cf. n. 166), embora não exclua “as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as” (n. 170). O próprio mundo virtual, rápido como é, pode “transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião” (n. 167). Isso não só nas horas de decisão, mas a cada momento da vida: nunca se deve deixar de pedir ao Espírito Santo o dom do discernimento. É preciso se colocar na atitude de escuta. “Tal atitude de escuta implica, naturalmente, obediência ao Evangelho como último critério, mas também ao Magistério que o guarda, procurando encontrar no tesouro da Igreja aquilo que pode ser mais fecundo para “o hoje” da salvação. Não se trata de aplicar receitas ou repetir o passado, uma vez que as mesmas soluções não são válidas em todas as circunstâncias e o que foi útil em um contexto pode não o ser em outro. O discernimento dos espíritos liberta-nos da rigidez, que não tem lugar no “hoje” perene do Ressuscitado. Somente o Espírito sabe penetrar nas dobras mais recônditas da realidade e ter em conta todas as suas nuances, para que a novidade do Evangelho surja com outra luz” (n. 173). Na lógica da cruz, não na nossa, à luz do Espírito Santo, fazemos grandes progressos na vida espiritual, rumo à santidade (n. 174-175).

O Santo Padre conclui sua Exortação voltando-se, no penúltimo parágrafo, à Nossa Senhora com estas belas e consoladoras palavras: Desejo coroar estas reflexões com a figura de Maria, porque Ela viveu como ninguém as bem-aventuranças de Jesus. É aquela que estremecia de júbilo na presença de Deus, aquela que conservava tudo no seu coração e se deixou atravessar pela espada. É a mais abençoada dos santos entre os santos, aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha. E, quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com Ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos. A Mãe não necessita de muitas palavras, não precisa que nos esforcemos demasiado para lhe explicar o que se passa conosco. É suficiente sussurrar uma vez e outra: ‘Ave Maria...’” (n. 176).

 

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Alegrai-vos e exultai – Alegria, ousadia, discernimento

09/04/2018 08:23 - Atualizado em 09/04/2018 08:23

O Santo Padre, o Papa Francisco, em sua carta “Gaudete et Exsultate”, depois de tratar da santidade como convite a todos os seres humanos (cap. I), dos dois grandes perigos que cercam o caminho da via para ser santo: o gnosticismo e o pelagianismo (cap. II), propôs, ante os desafios da vida santa, as bem-aventuranças (cap. III). Aqui, apresenta algumas (mas não todas) as grandes características da santidade no mundo atual (cap IV) o que requer luta, vigilância e discernimento (cap. V), conforme veremos a seguir.

Fala o Papa: “Neste grande quadro da santidade que as bem-aventuranças e Mateus 25,31-46 nos propõem, gostaria de recolher algumas caraterísticas ou traços espirituais que, a meu ver, são indispensáveis para compreender o estilo de vida a que o Senhor nos chama. Não me deterei a explicar os meios de santificação que já conhecemos: os diferentes métodos de oração, os sacramentos inestimáveis da Eucaristia e da Reconciliação, a oferta de sacrifícios, as várias formas de devoção, a direção espiritual e muitos outros. Limitar-me-ei a referir alguns aspectos da chamada à santidade, que tenham – assim o espero – uma ressonância especial” (n. 110). Que pontos são apontados? – São cinco. Veremos, ainda que, de forma breve, quais são.

1) Suportação, paciência e mansidão: “A primeira destas grandes caraterísticas é permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta. A partir desta firmeza interior, é possível aguentar, suportar as contrariedades, as vicissitudes da vida e também as agressões dos outros, as suas infidelidades e defeitos: ‘se Deus é por nós, quem será contra nós?’ (Rm 8,31). Nisso está a fonte da paz que se expressa nas atitudes de um santo” (n. 112). “É preciso lutar e estar atentos às nossas inclinações agressivas e egocêntricas, para não deixar que ganhem raízes: ‘Podeis irar-vos, contanto que não pequeis. Não se ponha o sol sobre vossa ira’ (Ef 4,26)” (n. 114). “A firmeza interior, que é obra da graça, impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração. O santo não gasta as suas energias a lamentar-se dos erros alheios, é capaz de guardar silêncio sobre os defeitos dos seus irmãos e evita a violência verbal que destrói e maltrata, porque não se julga digno de ser duro com os outros, mas considera-os superiores a si próprio (Fl 2,3)” (n. 116). Mais: quem se alegra com o bem alheio expulsa o demônio de perto de si, diz o Papa, citando São João da Cruz (Cautelas, 13: Opere (Roma 41979), 1070, cf. n. 117). Suportar sofrer, de modo cruento ou incruento, é sinal de santidade (desde que não se confunda com fuga ou covardia) em vários aspetos, além do que ajuda o mundo a ser muito melhor no dia a dia (cf. n. 119).

2) Alegria e sentimento de humor. Não será preciso relembrar o adágio popular que diz: “Um santo triste é um triste santo” para dizer que a verdadeira alegria e o bom humor consiste em uma das marcas da santidade em todos os tempos, apesar da seriedade que o caminho rumo ao céu comporta. “O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança. Ser cristão é ‘alegria no Espírito Santo’ (Rm 14,17), porque, ‘do amor de caridade, segue-se necessariamente a alegria. Pois quem ama sempre se alegra na união com o amado. (...) Daí que a consequência da caridade seja a alegria’ (São Tomás de Aquino. Summa Theologiae, I-II, q. 70, a. 3). Recebemos a beleza da sua Palavra e abraçamo-la “em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo” (1Ts 1,6). Se deixarmos que o Senhor nos arranque da nossa concha e mude a nossa vida, então poderemos realizar o que pedia São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos!” (Fl 4,4)” (n. 122). Ainda: “O mau humor não é um sinal de santidade: ‘tira a angústia do teu coração e afasta o mal do teu corpo’ (Ecl 11,10). É tanto o que recebemos do Senhor ‘para nosso bom uso’ (1Tm 6,17), que às vezes a tristeza tem a ver com a ingratidão, com estar tão fechados em nós mesmos que nos tornamos incapazes de reconhecer os dons de Deus” (n. 126).

3) Ousadia e ardor: “‘Não tenhais medo!’ (Mc 6,50). ‘Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos’ (Mt 28,20). Estas palavras permitem-nos partir e servir com aquela atitude cheia de coragem que o Espírito Santo suscitava nos Apóstolos, impelindo-os a anunciar Jesus Cristo. Ousadia, entusiasmo, falar com liberdade, ardor apostólico: tudo isto está contido no termo parresia, uma palavra com que a Bíblia expressa também a liberdade de uma existência aberta, porque está disponível para Deus e para os irmãos (At 4,29; 9,28; 28,31; 2Cor 3,12; Ef 3,12; Hb 3,6; 10,19)” (n. 129). “Olhemos para Jesus! A sua entranhada compaixão não era algo que o ensimesmava, não era uma compaixão paralisadora, tímida ou envergonhada, como sucede muitas vezes conosco. Era exatamente o contrário: era uma compaixão que o impelia fortemente a sair de si mesmo a fim de anunciar, mandar em missão, enviar a curar e libertar. Reconheçamos a nossa fragilidade, mas deixemos que Jesus a tome nas suas mãos e nos lance para a missão. Somos frágeis, mas portadores de um tesouro que nos faz grandes e pode tornar melhores e mais felizes aqueles que o recebem. A ousadia e a coragem apostólica são constitutivas da missão” (n. 131).

4) Em comunidade: a salvação se dá por meio de Cristo na Igreja (= comunidade), nunca só. “A santificação é um caminho comunitário, que se deve fazer dois a dois. Reflexo disto temos em algumas comunidades santas. Em várias ocasiões, a Igreja canonizou comunidades inteiras, que viveram heroicamente o Evangelho ou ofereceram a Deus a vida de todos os seus membros. Pensemos, por exemplo, nos sete Santos Fundadores da Ordem dos Servos de Maria, nas sete Beatas religiosas do primeiro mosteiro da Visitação de Madrid, em São Paulo Míki e companheiros mártires no Japão, em Santo André Taegon e companheiros mártires na Coreia, em São Roque González, Afonso Rodríguez e companheiros mártires na América do Sul. E recordemos também o testemunho recente dos Beatos monges trapistas de Tibhirine (Argélia), que se prepararam juntos para o martírio. De igual modo, há muitos casais santos, onde cada cônjuge foi um instrumento para a santificação do outro. Viver e trabalhar com outros é, sem dúvida, um caminho de crescimento espiritual. São João da Cruz dizia a um discípulo: estás a viver com outros ‘para que te trabalhem e exercitem na virtude’ (Cautelas, 15: Opere (Roma 41979), 1072)” (n. 141). “Contra a tendência para o individualismo consumista que acaba por nos isolar na busca do bem-estar à margem dos outros, o nosso caminho de santificação não pode deixar de nos identificar com aquele desejo de Jesus: ‘que todos sejam um só, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti’ (Jo 17,21)” (n. 146).

5) A oração: “lembremos que a santidade é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de comunicar-se com Deus. É alguém que não suporta asfixiar-se na imanência fechada deste mundo e, no meio dos seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor. Não acredito na santidade sem oração, embora não se trate necessariamente de longos períodos ou de sentimentos intensos” (n. 147). Não é, no entanto, a oração uma fuga da realidade, mas, sim, um preparar-se melhor a fim de mais bem se inserir nela. Vem à mente do Papa o exemplo do Peregrino russo, que, vivendo em oração contínua, podia testemunhar Cristo no próximo: “quando me encontrava com as pessoas, parecia-me que eram todas tão amáveis como se fossem da minha própria família. (...) E a felicidade não só iluminava o interior da minha alma, mas o próprio mundo exterior aparecia-me sob um aspecto maravilhoso” (Relatos de um Peregrino Russo (Milão 31979), 41;129, cf. n. 152).

O capítulo V aborda a luta, a vigilância e o discernimento. Diz o Papa sobre o tema: “A vida cristã é uma luta permanente. Requer-se força e coragem para resistir às tentações do demônio e anunciar o Evangelho. Esta luta é magnífica, porque nos permite cantar vitória todas as vezes que o Senhor triunfa na nossa vida” (n. 158). Tal luta – contra o mundo e as más tendências – é muito mais contra o demônio.

Daí enfatizar o Papa: Não admitiremos a existência do demônio, se nos obstinarmos a olhar a vida apenas com critérios empíricos e sem uma perspectiva sobrenatural. A convicção de que este poder maligno está no meio de nós é precisamente aquilo que nos permite compreender por que, às vezes, o mal tem uma força destruidora tão grande. É verdade que os autores bíblicos tinham uma bagagem conceitual limitada para expressar algumas realidades e que, nos tempos de Jesus, podia-se confundir, por exemplo, uma epilepsia com a possessão do demônio. Mas isto não deve levar-nos a simplificar demasiado a realidade afirmando que todos os casos narrados nos Evangelhos eram doenças psíquicas e que, em última análise, o demônio não existe ou não intervém. A sua presença consta nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, que termina com a vitória de Deus sobre o demônio. De fato, quando Jesus nos deixou a oração do Pai-Nosso, quis que a concluíssemos pedindo ao Pai que nos livrasse do Maligno. A expressão usada não se refere ao mal em abstrato; a sua tradução mais precisa é ‘o Maligno’. Indica um ser pessoal que nos atormenta. Jesus ensinou-nos a pedir cada dia esta libertação para que o seu poder não nos domine” (n. 160). Para um verdadeiro progresso espiritual é preciso resistir, sempre, ao diabo. Estar com “as lâmpadas acesas” (Lc 12,35), vigilantes: “afastai-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,22); “vigiai” (Mt 24,42; cf. Mc 13,35); não adormeçamos (1Ts 5,6) (cf. n. 164).

Outro grande ponto é o discernimento. Ele não é algo intelectual, mas dom do Espírito Santo (cf. n. 166), embora não exclua “as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as” (n. 170). O próprio mundo virtual, rápido como é, pode “transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião” (n. 167). Isso não só nas horas de decisão, mas a cada momento da vida: nunca se deve deixar de pedir ao Espírito Santo o dom do discernimento. É preciso se colocar na atitude de escuta. “Tal atitude de escuta implica, naturalmente, obediência ao Evangelho como último critério, mas também ao Magistério que o guarda, procurando encontrar no tesouro da Igreja aquilo que pode ser mais fecundo para “o hoje” da salvação. Não se trata de aplicar receitas ou repetir o passado, uma vez que as mesmas soluções não são válidas em todas as circunstâncias e o que foi útil em um contexto pode não o ser em outro. O discernimento dos espíritos liberta-nos da rigidez, que não tem lugar no “hoje” perene do Ressuscitado. Somente o Espírito sabe penetrar nas dobras mais recônditas da realidade e ter em conta todas as suas nuances, para que a novidade do Evangelho surja com outra luz” (n. 173). Na lógica da cruz, não na nossa, à luz do Espírito Santo, fazemos grandes progressos na vida espiritual, rumo à santidade (n. 174-175).

O Santo Padre conclui sua Exortação voltando-se, no penúltimo parágrafo, à Nossa Senhora com estas belas e consoladoras palavras: Desejo coroar estas reflexões com a figura de Maria, porque Ela viveu como ninguém as bem-aventuranças de Jesus. É aquela que estremecia de júbilo na presença de Deus, aquela que conservava tudo no seu coração e se deixou atravessar pela espada. É a mais abençoada dos santos entre os santos, aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha. E, quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com Ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos. A Mãe não necessita de muitas palavras, não precisa que nos esforcemos demasiado para lhe explicar o que se passa conosco. É suficiente sussurrar uma vez e outra: ‘Ave Maria...’” (n. 176).

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro