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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/09/2018

21 de Setembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (59)

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21 de Setembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (59)

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22/06/2018 11:37 - Atualizado em 22/06/2018 11:38

Livros do Antigo Testamento (59) 0

22/06/2018 11:37 - Atualizado em 22/06/2018 11:38

Neste artigo damos continuidade às questões introdutórias ao Livro dos Números.

A redação definitiva deste livro deve colocar-se em data posterior ao exílio da Babilônia. Certas leis, sobretudo, são determinadas pela prática ritual estabelecida pelos sacerdotes após o Exílio (séc. VI-V).

De resto, só bastante tardiamente, graças a tradições orais muito antigas de proveniência diversa e a fontes documentais variadas, transmitidas como ‘memória do passado histórico’, é que terá sido possível cerzir em unidade literária o conjunto das leis e a sequência dos acontecimentos.

1. Teologia

Como quer que seja, toda a narrativa está articulada dentro do binômio da fidelidade-infidelidade à Aliança, evidenciando o movimento quaternário da História da Salvação: o povo peca, Deus castiga, o povo arrepende-se, Deus perdoa.

Nos interlúdios do contrastante claro-escuro que as tentações acarretam, surge o difícil papel de Moisés, como mediador das exigências de Deus e advogado das necessidades e angústias do povo; mas, até ele acaba por sofrer um castigo, sendo privado de entrar na Terra Prometida, já com ela à vista.

É a lei da pedagogia divina, a que até os homens de Deus têm de se sujeitar.

Afinal, o Livro dos Números não é factualmente histórico; apresenta uma narrativa historicizante de acentuado valor didático-pragmático para que, no drama dos seus antepassados através do deserto, o povo eleito, já na Terra Prometida, soubesse enfrentar os desafios e as esperanças do seu futuro, tal como o pagão Balaão, qual profeta inspirado de Israel, o soube prognosticar (cap. 23-24).

2. Hermenêutica cristã

Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e, assim, entrasse na sua glória? E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras (...). Depois lhes disse: Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos. Abriu-lhes, então, o espírito, para que compreendessem as Escrituras (Lc 24, 25-27. 44-45).

Este foi um dos livros da Bíblia que não mereceu especial atenção na tradição da Igreja. No entanto, os modernos estudos sobre a Aliança e sobre a História da Igreja estão a fazer-lhe justiça.

Apesar de não aparecerem aqui explicitamente alguns dos grandes temas do Pentateuco (Criação, Eleição, Promessa, Aliança, Lei), o Livro dos Números é já a realização da Aliança de Deus com o seu povo, por meio do culto.

O tema da bênção, de que o povo é depositário nos quatro oráculos de Balaão (23-24), anuncia a eleição da dinastia davídica (24,17):

Eu o vejo, mas não é para agora, percebo-o, mas não de perto: um astro sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel, que fratura a cabeça de Moab, o crânio dessa raça guerreira.

Importante é ainda o tema da Tenda, lugar da Presença (Shekkinah) do Senhor, que caminha no meio do seu povo.

O tema do Deserto é também fundamental neste livro e foi dos que teve maior ressonância, tanto no resto do Antigo Testamento como no Novo.

O povo de Israel, peregrino pelo deserto durante “40 anos”, tornou-se o protótipo do novo povo de Deus, guiado por Jesus Cristo, que também foi ao deserto (Mt 4,1-11; Lc 4,1-13):

E logo o Espírito o impeliu para o deserto. Aí esteve 40 dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam (Mc 1,12-13).

Jesus Cristo é, para este novo povo liberto, a água viva (20,2-13; e Jo 4,1-26)

Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: Dá-me de beber. (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.). Aquela samaritana lhe disse: Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!... (Pois os judeus não se comunicavam com os samaritanos.). Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. A mulher lhe replicou: Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo... donde tens, pois, essa água viva? És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos? Respondeu-lhe Jesus: Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna (Jo 4, 8-14)

O verdadeiro maná (11,6-9; e Jo 6,26-58):

Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: Deu-lhes de comer o pão vindo do céu (Sl 77,24). Jesus respondeu-lhes: “Em verdade, vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo. Disseram-lhe: Senhor dá-nos sempre deste pão! Jesus replicou: Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em Mim jamais terá sede” (Jo 6, 31-35).

A verdadeira serpente de bronze que salva o seu povo (21,4-9; e Jo 3,13-15; 1 Cor 10,9-11):

Ninguém subiu ao céu senão aqu’Ele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que n’Ele crê tenha a vida eterna (Jo 3, 13-15).

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Livros do Antigo Testamento (59)

22/06/2018 11:37 - Atualizado em 22/06/2018 11:38

Neste artigo damos continuidade às questões introdutórias ao Livro dos Números.

A redação definitiva deste livro deve colocar-se em data posterior ao exílio da Babilônia. Certas leis, sobretudo, são determinadas pela prática ritual estabelecida pelos sacerdotes após o Exílio (séc. VI-V).

De resto, só bastante tardiamente, graças a tradições orais muito antigas de proveniência diversa e a fontes documentais variadas, transmitidas como ‘memória do passado histórico’, é que terá sido possível cerzir em unidade literária o conjunto das leis e a sequência dos acontecimentos.

1. Teologia

Como quer que seja, toda a narrativa está articulada dentro do binômio da fidelidade-infidelidade à Aliança, evidenciando o movimento quaternário da História da Salvação: o povo peca, Deus castiga, o povo arrepende-se, Deus perdoa.

Nos interlúdios do contrastante claro-escuro que as tentações acarretam, surge o difícil papel de Moisés, como mediador das exigências de Deus e advogado das necessidades e angústias do povo; mas, até ele acaba por sofrer um castigo, sendo privado de entrar na Terra Prometida, já com ela à vista.

É a lei da pedagogia divina, a que até os homens de Deus têm de se sujeitar.

Afinal, o Livro dos Números não é factualmente histórico; apresenta uma narrativa historicizante de acentuado valor didático-pragmático para que, no drama dos seus antepassados através do deserto, o povo eleito, já na Terra Prometida, soubesse enfrentar os desafios e as esperanças do seu futuro, tal como o pagão Balaão, qual profeta inspirado de Israel, o soube prognosticar (cap. 23-24).

2. Hermenêutica cristã

Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e, assim, entrasse na sua glória? E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras (...). Depois lhes disse: Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos. Abriu-lhes, então, o espírito, para que compreendessem as Escrituras (Lc 24, 25-27. 44-45).

Este foi um dos livros da Bíblia que não mereceu especial atenção na tradição da Igreja. No entanto, os modernos estudos sobre a Aliança e sobre a História da Igreja estão a fazer-lhe justiça.

Apesar de não aparecerem aqui explicitamente alguns dos grandes temas do Pentateuco (Criação, Eleição, Promessa, Aliança, Lei), o Livro dos Números é já a realização da Aliança de Deus com o seu povo, por meio do culto.

O tema da bênção, de que o povo é depositário nos quatro oráculos de Balaão (23-24), anuncia a eleição da dinastia davídica (24,17):

Eu o vejo, mas não é para agora, percebo-o, mas não de perto: um astro sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel, que fratura a cabeça de Moab, o crânio dessa raça guerreira.

Importante é ainda o tema da Tenda, lugar da Presença (Shekkinah) do Senhor, que caminha no meio do seu povo.

O tema do Deserto é também fundamental neste livro e foi dos que teve maior ressonância, tanto no resto do Antigo Testamento como no Novo.

O povo de Israel, peregrino pelo deserto durante “40 anos”, tornou-se o protótipo do novo povo de Deus, guiado por Jesus Cristo, que também foi ao deserto (Mt 4,1-11; Lc 4,1-13):

E logo o Espírito o impeliu para o deserto. Aí esteve 40 dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam (Mc 1,12-13).

Jesus Cristo é, para este novo povo liberto, a água viva (20,2-13; e Jo 4,1-26)

Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: Dá-me de beber. (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.). Aquela samaritana lhe disse: Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!... (Pois os judeus não se comunicavam com os samaritanos.). Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. A mulher lhe replicou: Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo... donde tens, pois, essa água viva? És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos? Respondeu-lhe Jesus: Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna (Jo 4, 8-14)

O verdadeiro maná (11,6-9; e Jo 6,26-58):

Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: Deu-lhes de comer o pão vindo do céu (Sl 77,24). Jesus respondeu-lhes: “Em verdade, vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo. Disseram-lhe: Senhor dá-nos sempre deste pão! Jesus replicou: Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em Mim jamais terá sede” (Jo 6, 31-35).

A verdadeira serpente de bronze que salva o seu povo (21,4-9; e Jo 3,13-15; 1 Cor 10,9-11):

Ninguém subiu ao céu senão aqu’Ele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que n’Ele crê tenha a vida eterna (Jo 3, 13-15).

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica