Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 16º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/10/2018

23 de Outubro de 2018

Vocação e santidade no mundo do trabalho

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23 de Outubro de 2018

Vocação e santidade no mundo do trabalho

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09/08/2018 00:00

Vocação e santidade no mundo do trabalho 0

09/08/2018 00:00

Neste ano do laicato e neste mês vocacional creio que um tema que pode ser apresentado para reflexão é a ligação entre vocação e trabalho. “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (2 Coríntios 12, 09). Num mundo dilacerado pelo individualismo e materialismo, é importante que abordemos o tema do trabalho como vocação e fonte para a santidade no cotidiano.

Desde sempre, esse tema foi muito importante para o cristianismo, pois, já no relato do livro do Gênesis, vemos um Deus trabalhador, o qual fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo dia, como premissa de um Deus que se compraz no ser humano.

O próprio Verbo Encarnado, Filho de Deus, fez-se Homem-trabalhador, afinal, com certeza, Ele deve de ter aprendido o ofício de seu pai adotivo, São José. Durante vários relatos, inclusive, vemos que o Senhor Jesus é chamado de “o Filho do Carpinteiro”.

Assim sendo, o trabalho permeia a própria existência humana e a Igreja, fiel ao Seu Senhor, também trabalha desde os seus primórdios. A oração do cristão na Igreja é o chamado “Ofício Divino”, o qual após o Concílio Ecumênico Vaticano II passou a ser denominado de “Liturgia das horas”. A “Liturgia das Horas” é o trabalho comum, ordinário, de todos os cristãos, em especial dos religiosos, vida consagrada e, em especial dos sacerdotes. Neste ofício, a Igreja se recolhe nas várias horas do dia para louvar o Senhor e render-lhe graças.

Na vida religiosa monástica, é importante do preceito de nosso Pai São Bento que diz “oração e trabalho”. Em nenhum momento da Regra beneditina, encontra-se escrito, de forma literal, “oração e trabalho”. Este conceito foi extraído muito tempo depois, com a leitura da regra, pois se percebeu um perfeito equilíbrio entre oração e trabalho. A vida monástica cisterciense – da qual com muito afeto provenho –, como um dos ramos beneditinos, sempre foi muito obediente a este equilíbrio seguiu com a oração em coro do “Ofício Divino” e a vida de serviço que pode ser muito variado. Como consequência dessa vida, muita coisa se exteriorizou na construção de várias edificações, por séculos a fio, por toda Europa e o maior exemplar disso são as belíssimas igrejas em louvor à grandeza do Senhor e os mosteiros, os quais sempre foram centros de difusão cristã e da cultura na Europa.

Ao longo dos séculos, vários homens e mulheres fizeram do trabalho um meio de glorificação dos prodígios do Senhor. Poderíamos nos estender por diversos parágrafos para falar sobre como o trabalho é uma das fontes da vocação e caminho perfeito para a santificação, dando pleno cumprimento com o que foi assumido na pia batismal.

Entretanto, é necessário que seja feita uma leitura do trabalho e sua importância para construção do bem comum a partir da doutrina social da Igreja. Num primeiro momento, ao se falar de “doutrina social da Igreja”, muitos se lembram da encíclica “Rerum Novarum” do Papa Leão XIII. Esse escrito do Pontífice nasceu num0 momento de grande agitação social, o qual clamava e reclamava uma resposta da Igreja de então. A “Rerum Novarum”, antes de ser uma elaboração contra um problema histórico como querem colocar, na realidade é um resgate de todo patrimônio cultural, histórico, intelectual e, sobretudo espiritual da Igreja com relação ao trabalho. Sendo que este patrimônio vem desde o Seu Divino Fundador até o atual Sumo Pontífice Romano, o Santo Padre o Papa Francisco.

Aprofundando a nossa reflexão, nós vemos a questão do trabalho como bem comum e como algo urgente, necessário e, mais do que isto, como um ponto sobre o qual temos de parar e nos debruçarmos para pensar o que realmente está acontecendo no mundo, o que realmente está acontecendo na nossa realidade.

A doutrina social da Igreja, com toda a tradição que ela possui, pode oferecer luzes e elementos para que nós possamos pensar saídas e vislumbrar alternativas. Enfim, pensar um outro modo que seja considerado como “Bem comum”, assim como nos pede de forma insistente o Papa Francisco.

Devemos situar a nossa realidade, neste contexto, de uma sociedade de mercado extremamente agressiva, individualista e sem senso ético de comunidade. Somente com isto poder-se-á ter um olhar emprestado da doutrina social da Igreja.

Para todos nós que tivemos formação durante o Século XX, em especial, para nós que fomos formados nos alicerces do Vaticano II, bem sabemos que a doutrina social da Igreja oferece elementos sólidos, rígidos e bem estruturados para um diálogo com a sociedade e com a vida acadêmica, a qual, em certa medida, encontra-se laicizada.

Na sua encíclica “Evangelium Gaudium”,[1] o Papa Francisco, no número 59, assim afirma de forma peremptória: “É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor.”

Esta forma simples, direta e objetiva do Santo Padre de se manifestar nos traz alguns questionamentos: ainda se tem sentido em falar de bem comum? Como o trabalho pode contribuir para a construção, elaboração e efetivação deste bem comum? Nossos governos, nossas instituições privadas e nossas instituições públicas estão a serviço de quem? Estas são as questões de fundo.

Assim como Nosso Senhor, o qual se encarnou e se fez história conosco, num determinado local e num determinado espaço de tempo, a Igreja também procura hoje atualizar sua mensagem por meio de sua doutrina social, a qual está em sintonia com este grande desafio contemporâneo da história de cada uma das filhas e dos filhos de Deus.

No mundo trabalhista de então, de quando surgiu a expressão burilada “doutrina social da Igreja”, com o Papa Leão XIII, desde então, tem-se que a doutrina social é uma tentativa, de dentro de uma realidade, de oferecer à humanidade seu acervo espiritual e teológico.

O ponto de partida fundamental que nós temos de ter é: o tema da economia, o tema do mercado e o tema da política. Ao falarmos de bem comum, não estamos inventando absolutamente nada. Este era um conceito que existia na economia antes de revolução industrial, antes do capitalismo, antes do marxismo ou de qualquer outra forma moderna e conhecida de economia para a sociedade. Os mercados já existem há muitos séculos. E eram instrumentos, acessórios, a serviço da sociedade, organizados e controlados por instituições políticas ou por instituições religiosas.

A partir da modernidade, a partir da erupção da economia de mercado capitalista, acontece uma inversão muito grande. Agora, é a organização social que está inserida no mercado. E a lógica do bem comum – que, praticamente, vinha até a modernidade, que era um dos pilares da sociedade e da política – aos poucos foi sendo substituída por outras lógicas, por outras racionalidades. E a principal racionalidade é a racionalidade econômica, aquela pensada e proposta pelos economistas liberais, principalmente, Adam Smith, pela lógica da acumulação material.

Neste mesmo sentido, é que o trabalho foi reificado, conforme vamos melhor expor adiante.

Então, toda a atividade da economia foi sendo direcionada da um único objetivo apenas: maximizar o lucro. E que este lucro fosse distribuído entre os investidores. A economia de mercado, não capitalista, é anterior a este sistema. A economia de mercado só se tornou capitalista depois.

Este primeiro elemento estará presente nas fontes do pensamento social da Igreja, principalmente, Santo Tomás de Aquino. O segundo elemento que temos de chamar atenção é o seguinte: até, mais ou menos, metade do Século XIX o conceito de bem comum era um conceito muito importante no discurso econômico.

Foi surgindo um outro conceito emprestado da filosofia e que foi invadido o terreno da economia e da política. O conceito de utilidade ou o utilitarismo. E, com isto, o trabalho foi sendo realocado como meio de obtenção de mais lucro, mais acumulação de bens. O pensamento econômico mais apropriado será aquele que ajuda a maximizar os lucros, os ganhos, a renda.

A primeira resposta está justamente na erupção da Revolução Industrial. E é na Revolução Industrial que vai surgir a doutrina social da Igreja, preocupada com o mundo do trabalho.

Esta Revolução Industrial que rompe na Inglaterra – que é o país do liberalismo, de John Locke, de Adam Smith – põe como urgência muito grande, a serviço do mercado, aumentar o capital, principalmente, o capital físico, as máquinas. É preciso que realize uma rápida acumulação de capital, para permitir que as empresas adquiram mais capital, mais máquinas. Era preciso que se retirasse e algum lugar, desviar o dinheiro para a construção de máquinas e de equipamentos. E tiraram dinheiro de algum lugar, de uma forma muito rápida, do outro instrumento do modo de produção, que são a força de trabalho, a mão de obra.

A exploração do trabalho, não apenas a exploração do trabalho dos homens, mas de mulheres e de crianças, isto é descrito em parágrafos inteiros da “Rerum Novarum”. Toda crueldade com que foram tratados os trabalhadores e trabalhadoras no início desta Revolução Industrial. A exploração cruel do ser humano.

Na visão, na lógica, da acumulação de riqueza e no princípio do utilitarismo isto é plenamente justificável. A economia vai deixando de ser uma atividade com outros fins, para voltar-se para este: a busca do lucro. Nem que para isto se sacrifique vidas humanas. Olhando para hoje: hoje, o tema do mercado está com muita força.

O que são mercados hoje? Podemos fazer esta pergunta. Aqueles mercados que surgiram a partir da modernidade, da Revolução Industrial. Pode-se ver os mercados como uma grande soma, como uma soma de interesses agregados de um complexo industrial financeiro empresarial poderoso, que exerce um poder de fato sobre Governos e instituições. Aquele mercado que surgiu lá atrás, hoje, invade, praticamente, toda a nossa vida.

Ele é um aspecto de um sistema maior, que é o sistema de mercado de capitais. Hoje, o sistema de mercado de capitais não é apenas economia, ele é um modelo de civilização. Não um sistema econômico. O sistema de mercado vai integrando a forme e o conteúdo de toda a civilização. Falar de bem comum, hoje, supõe esta compreensão crítica, ampla, macrossistêmica, desta realidade.

Desta forma, na sociedade tudo passa a ser movida a partir da lógica do lucro, outros fins vão desaparecendo do horizonte da sociedade e da economia. Neste momento, aparece uma citação muito forte do Papa Francisco, em seu discurso aos movimentos popular em Roma. O Papa Francisco perguntou: no mundo de hoje, diante desta realidade, quem governa? Quem governa, então, o papa responde: o dinheiro. Como governa? Com o chicote: Chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, da violência social, da violência militar, que gera uma espiral de violência, que parece que não termina nunca. Este é um pouco deste quadro que se desenha. Com isto, podemos começar a pensar o bem comum, diante deste capital financeiro tão poderoso.

Por fim, outro elemento, devemos uma outra ligação, vinculação, com a “Laudato Si”, de Papa Francisco, é a ideia de “Casa Comum”. Este sistema é um sistema extremamente dinâmico. Aqui, há uma mudança que está sendo identificada pelos sociólogos e economistas. Sempre se pensou que o capitalismo vive de um motor, um motor chamado: “destruição produtiva”. Atualmente, este motor mudou. O motor hoje é “produção destrutiva”. Esta é a lógica. Esta é a articulação do capital financeiro que se serve do capital produtivo. E onde chega, nas sociedades, na natureza, no meio ambiente, ele produz destruindo. Ele destrói não só o meio ambiente, mas também destrói, sobretudo vidas, descarta florestas, rios, empregos, comunidades, famílias etc.

Também a ecologia está absorvida pela economia, como diz “Laudato Si”. A crise é muito maior, ela é social, é política, é econômica, é ambiental. E as consequências imediatas, geradas por esta lógica, são identificadas na realidade, na vida dos pobres e na devastação da natureza. É difícil de se pensar algo bom para esta economia que já não se sustenta mais. É curioso pensar assim nesta sociedade, porque parece cada vez mais claro que este sistema abandonará uma crença que ele tem: que esta crença da produção destrutiva. É o dogma do crescimento. Este sistema não consegue não crescer. Ele não consegue não se expandir onde ele vai. E a sociedade continua acreditando que este sistema é sustentável, por mais incrível que possa parecer.

Este é o problema quando se maximiza os objetivos, outros são anulados ou são esquecidos. Com isto, vivemos, como diz o Papa Francisco, nesta espécie de tirania do invisível, que, às vezes, é virtual e atua de maneira unilateral. Um outro elemento que devemos nos atentar, na relação deste contexto, esta ideia de fundo que está presente na economia, na política, e que nós no Brasil estamos sentindo a aplicação destas ideias, de pouco tempo para cá.

Porque cada dia é mais difícil que se fale em justiça social, em bem comum, em igualdade? Porque tem uma ideia de fundo, um espírito, que pensa justamente o oposto do pregado pelo Papa Francisco. Muitos pensadores ajudaram a configurar esta sociedade.

Vamos citar apenas 02 aqui, que fecham todas as portas à ética, a pensamentos distintos, como a ideia de bem comum. O sistema atual foi construído, pensado, nos anos 40, em oposição ao Estado de Bem-Estar Social, proposto por John Maynard Keynes. É a ideia do “laissez-faire”.

Outro ponto, para o sistema em atuação, existe indivíduo, não existe uma sociedade. Desta forma, no mundo do trabalho, as pessoas não são vistas como seres dentro de um todo, mas sim como peças que podem serem substituídas a qualquer momento.

Há uma negação do conceito de bem público. O bem comum só faria sentido se de fato houvesse uma sociedade. Mas como não existe, se existem só indivíduos, como falar de bem comum? Esta ideia da mão invisível, da ordem natural, a ela é confiada a ordem da sociedade. Qualquer sociedade, qualquer Estado mais extenso, seria imoral, porque feriria as liberdades individuais. O Estado mais extenso seria um Estado que pensa a justiça social, que pensa o bem comum, como categorias filosóficas ou antropológicas.

No atual sistema, o Estado não é eliminado. Muito pelo contrário, ele se apropria do Estado, ele sequestra o Estado e muda a agenda do Estado. Hoje, o Estado se tornou um aliado. E um dos principais responsáveis pelo bem comum é o Estado. Se o Estado é minado, cortam-se as possiblidades de que o bem comum se concretize apoiado ou movido pelo Estado. Nos governos com este modelo, e nós estamos vendo isto cada vez mais claro no Brasil, é ajustar a economia e um país inteiro ao mercado.

Ajustar: quando se fala em ajuste fiscal, é disto que se trata. É ajustar a economia de um país todo ao mercado.  Este é o cenário. É a redução da política força do dinheiro. E, quando a política está reduzida à força do dinheiro, a presença da sociedade não consegue fazer presença no Estado. O Estado fica imune à participação da sociedade civil. Há uma corrosão muito grande desta dimensão pública. Não só no Brasil, mas em muitos outros países também.

Duas afirmações fundamentais nesta linha:

01ª- Ludwig von Mises: da Escola Austríaca. Ele diz o seguinte na obra “Ação Humana”: um dos fundamentos deste sistema econômico – além da propriedade privada e da exploração do trabalho – é a desigualdade social. A desigualdade de riqueza e de renda é uma característica essencial desta economia. Eliminar ou combater esta desigualdade social significa destruir este sistema econômico.

Então, ela não precisa ser só mantida, ela precisar ser aumentada, ser reforçada. Não é à toa os dados da Oxfam – outro banco mundial da ONU – assustam-nos, pois a cada dia a concentração de riquezas está no topo do 01%. É a aplicação de Ludwig von Mises.

Na economia de mercado, o ser humano é livre no sentido de que o governo não o obriga a renunciar à sua autonomia. Quer dizer, a pessoa é totalmente livre, a pessoa não pode ser submetida a outros objetivos e finalidades que o Estado impõe sobre a pessoa. P. ex., o compromisso com o bem comum ou com a justiça social. Não há lugar para políticas públicas de redistribuição em economias como as atuais.

Esta rejeição da ideia de bem comum. E o fundamento último colocado pelos pensadores do atual sistema é o seguinte: ideias de bem comum e de justiça social não têm nenhuma fundamentação metafísica ou teleológica, que possa sustenta-la. Quer dizer, quem pensa a justiça é uma sociedade, é a sociedade que vai dizer o que é justo e o que é injusto, o que é bom ou o que é mal. Não existe uma ideia pela qual a sociedade possa pautar-se para pensar uma organização e um projeto. É o contrário.

E Ludwig von Mises vai dizer na sua obra “Ação Humana”: sendo assim é inútil pensar o governo, pensar o Estado, a partir de valores e princípios imutáveis, pré-estabelecidos. Como a filosofia grega também pensava.

Para fecharmos a ideia, ele vai dizer o seguinte: vocês cristãos, os vossos princípios morais, seriam simplesmente desastrosos para a economia. Não se pode apelar à consciência das pessoas, para que elas, realmente, atuem na economia ou na política. Apele ao egoísmo, ao individualismo, porque, com isto, a economia funciona.

02ª- Friedrich Hayek: que foi de Ludwig von Mises, vai dar um passo perigoso. Políticas sociais fundadas na justiça ou no bem comum são incompatíveis com a democracia ou com a sociedade ou Estado de Direito. Viola as liberdades individuais.

E o outro motivo ele vai reforçar o motivo dado por seu professor Ludwig von Mises: não tenham um código de ética que fundamente a ideia de bem comum. O que possa obrigar o Estado a pensar políticas em função do bem comum. Questões sociais, preocupações sociais, são problemas individuais. Pertencem ao campo da moral individual. Se a pessoa está preocupada com a miséria, com a pobreza, isto é um problema da pessoa. Não do Estado, não da sociedade. Faça algo, mas segundo a consciência individual de cada, mas isto não deve ser pedido ao Estado. Para o atual sistema, é assim que funciona.

O Estado tem outras funções, que é garantir o funcionamento da economia, segundo a lógica de mercado capitalista na sua atual formatação. Hoje, parece que este sistema está chegando ao auge da sua implantação: da radicalização dos princípios, da cumulação material e da concretização da desigualdade social. O abismo está ficando cada vez mais fundo.

Tem sentido se falar em bem comum? Esta é a pergunta que se deve refletir. Desta forma, refletir sobre o bem comum é tarefa inadiável, nestes tempos difíceis, em que a busca de poder e de lucro domina as relações pessoais, domina o Estado e domina os povos.

É neste contexto que precisamos falar, como diz o Papa Francisco: a noção de bem comum tem um papel central e unificador de toda a ética social.

É a dignidade da pessoa e o bem comum, são estas duas questões – estes dois princípios – que deveriam estruturar toda a política econômica. É um discurso totalmente oposto ao doloroso modo de viver que enfrentamos hoje.

Por isto que quando o Papa Francisco lançou a encíclica “Evangelium Gaudium” e depois a “Laudato Si”, algumas revistas (p. ex., New York Times) foram tremendamente duras com ele. E, hoje, tem uma postura neoconservadora na sociedade é uma das mais fortes que a Igreja já enfrentou na história. Quando ele fala esta economia mata, é este tipo de economia aqui que ele está falando.

Quando o pensamento social da Igreja recupera, agora, outra vez, com tanta força, como o Papa Francisco está recuperando a ideia de bem comum, ela tenta resgatar algo que a Igreja já carrega na sua tradição. Vamos nos apoiar em apenas 02 autores que são referências clássicas: 01º- Santo Agostinho; 02º- Santo Tomás de Aquino. Este conceito está muito forte, muito presente, nestes autores.

Santo Agostinho tem um vocabulário bastante amplo neste assunto. A expressão “bem comum” é empregada, p. ex., em Santo Agostinho para traduzir múltiplas realidades públicas, múltiplas expressões. P. ex., a ideia de “Res”pública.

Pensando nesta possibilidade da existência de um povo com “res-pública”, Santo Agostinho vai se apoiar num grande pensador, Cícero, o qual já defendia um povo não é apenas um conjunto de seres humanos reunidos de qualquer jeito, não são átomos espalhados por ai, que é o que pensa o sistema imperante. Mas o povo é uma grande assembleia (ecclesia), uma assembleia de pessoas associadas entorno de algo comum, entorno de objetivos comuns, no que diz respeito à convivência social juntas. Quase que uma parceria de pessoas entorno do bem comum.

Esta afirmação de Cícero vai ser enriquecida por Santo Agostinho na sua teologia da caridade (“a caritas”). Com isto, Santo Agostinho vai buscar fundamentação teológica. Santo Agostinho vai pegar esta proposição e vai superar esta ideia de Cícero no seguinte sentido: “a caritas” convida nos convida a nos fixar não apenas na sociedade em si, é necessário um elemento da filosofia ou da teologia, não transitório. Porque as sociedades são transitórias, não imutável. Pensar o bem comum da sociedade como algo mais universal. O universal mais do que o particular.

A partir disto, Agostinho vai fazer a referência à Cidade Eterna. Com esta categoria de caridade, Agostinho vai oferecer 02 enfoques sobre o bem comum:  a) Está direcionado para a cidade dos homens, a cidade terrena; b) E o outro para a Cidade Eterna, onde ele vai identificar o Sumo Bem Comum.

Esta intuição parece bastante importante se for considerado que o Bem Comum aparece como recurso teológico-moral, capaz de combinar estas 02 tensões: de um lado a possibilidade de viver a radicalidade da caridade, do mandamento do amor, na sociedade, de uma maneira concreta, e que a maneira de concretizar esta realidade depende de algo anterior para Agostinho, que é a experiência do Amor Sumo, do Amor de Deus, o fundamento.  De outro lado, esta capacidade de interagir em termos de amizade, de reciprocidade, colaboração, numa sociedade que busca fins, finalidades comuns.

Esta caridade de amizade vai fundamentando as relações entre os cidadãos e uma comunidade política (na polis). Tal amizade – esta caridade – é a base de promoção para o bem comum. Agostinho como uma das condições para que ela ocorra.

Ainda que a organização da Cidade Terrena não seja capaz de promover a comunhão por excelência, própria do Sumo Bem de Deus, ela pode ajudar, pode proporcionar a vida comum dos cidadãos. Através da geração de bens, que todos possam beneficiar-se.

Desta forma, esta relação entre Sumo Bem e bem comum se entrelaçam em Agostinho, de tal modo que a busca do segundo colabora na compreensão mais profunda do primeiro. E a compreensão teológica do primeiro impulsiona a busca do segundo numa sociedade histórica, que vai configurando a Cidade Terrena, através de estruturas sociais, de mecanismos, que garantam os bens, para que as pessoas possam viver de maneira humana, a saúde, o alimento, a moradia, a educação, a cultura, a religião etc.

Ele fecha um pouco esta ideia dizendo que não há outra maneira da paz no mundo ser encontrada. A paz é alcançada quando estes bens envolvidos pela caridade e pela amizade são garantidos.

Santo Tomás de Aquino avançando nesta reflexão vai dar uma contribuição muito interessante. Santo Tomás dizer que o termo “bem” é predicável de muitas maneiras. Ele vai identificar 03 maneiras de predicar o “bem comum”:

a) Bem predicavelmente comum: é o bem predicado à toda pessoa. P. ex., a essência humana, a natureza humana, somos humanos.

b) Bem causalmente comum: este bem é partilhado por todos e pertence a todas as pessoas. P. ex., a paz social, uma ordem social, a partilha pela felicidade por ter vencido a batalha ou conquistado como sociedade algo importante.

c) Bens comuns de utilidade: estes estão ligados à Justiça distributiva. P. ex., tema da água, da saúde, do alimento etc.

Estes modos de compreensão encontram-se em Santo Tomás na sociedade. P. ex., a felicidade, que seria um bem predicavelmente comum, que é desejada por todos, a eudaimonia, é obtida como elemento da organização social, que é o bem causalmente comum. Que, por sua vez, é sustentado por outro que é o bem utilidade, que é a justa distribuição dos bens uteis, da utilidade para a vida.

Ou seja, desta compreensão da pessoa humana como ser de relação, nestes 03 tipos de bens predicáveis, depene toda ideia de bem comum. Isto é possível porque todo ser humano tende para a vida em sociedade. No pensamento de Santo Tomás, há esta tendência natural para o bem, ordenados ao bem.

Então, estas duas dimensões de Santo Tomás: a) o bem transcendente ou bem sobrenatural; e b) o outro o bem imanente ou bem aqui. A primeira diz respeito a Deus. A segunda diz respeito às relações sociais baseadas na Justiça e na vida virtuosa.

O bem último a ser buscado e contemplado é a Verdade. É a visão beatífica, porque a Verdade Absoluta é Deus, porque de Deus depende o bem e todas as coisas vêm de Deus. É o Sumo Bem por natureza. E o bem comum imanente – relações sociais, justiça e virtude – alcançados na vida em comunidade, este é o bem por excelência mais elevado. E a condição para também alcançar os outros bens, porque a sociedade – diz Santo Tomás – é uma relação.

Vemos como tudo que temos e que somos sempre é para o outro, para o crescimento de todos juntos, pois este pensamento perpassa toda a história da Igreja e nos seus pensadores, os quais sempre fieis ao Seu Divino Senhor e Salvador sempre procuraram manter a comunidade unidade unida para a realização do “Bem Comum”, assim como a Trindade, unida indivisa e substancial, mantém-se unidade desde sempre e por todo o sempre, o ser humano, o qual foi criado à Sua imagem e semelhança, também tem necessidade de aglutinar-se com outros, para que só assim possa cumprir a sua missão assumida no batismo e, para que o trabalho, como uma das várias formas de glorificação do Senhor, possa ser caminho para a santificação individual e coletiva. Para que em tudo seja Deus glorificado.



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Neste ano do laicato e neste mês vocacional creio que um tema que pode ser apresentado para reflexão é a ligação entre vocação e trabalho. “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (2 Coríntios 12, 09). Num mundo dilacerado pelo individualismo e materialismo, é importante que abordemos o tema do trabalho como vocação e fonte para a santidade no cotidiano.

Desde sempre, esse tema foi muito importante para o cristianismo, pois, já no relato do livro do Gênesis, vemos um Deus trabalhador, o qual fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo dia, como premissa de um Deus que se compraz no ser humano.

O próprio Verbo Encarnado, Filho de Deus, fez-se Homem-trabalhador, afinal, com certeza, Ele deve de ter aprendido o ofício de seu pai adotivo, São José. Durante vários relatos, inclusive, vemos que o Senhor Jesus é chamado de “o Filho do Carpinteiro”.

Assim sendo, o trabalho permeia a própria existência humana e a Igreja, fiel ao Seu Senhor, também trabalha desde os seus primórdios. A oração do cristão na Igreja é o chamado “Ofício Divino”, o qual após o Concílio Ecumênico Vaticano II passou a ser denominado de “Liturgia das horas”. A “Liturgia das Horas” é o trabalho comum, ordinário, de todos os cristãos, em especial dos religiosos, vida consagrada e, em especial dos sacerdotes. Neste ofício, a Igreja se recolhe nas várias horas do dia para louvar o Senhor e render-lhe graças.

Na vida religiosa monástica, é importante do preceito de nosso Pai São Bento que diz “oração e trabalho”. Em nenhum momento da Regra beneditina, encontra-se escrito, de forma literal, “oração e trabalho”. Este conceito foi extraído muito tempo depois, com a leitura da regra, pois se percebeu um perfeito equilíbrio entre oração e trabalho. A vida monástica cisterciense – da qual com muito afeto provenho –, como um dos ramos beneditinos, sempre foi muito obediente a este equilíbrio seguiu com a oração em coro do “Ofício Divino” e a vida de serviço que pode ser muito variado. Como consequência dessa vida, muita coisa se exteriorizou na construção de várias edificações, por séculos a fio, por toda Europa e o maior exemplar disso são as belíssimas igrejas em louvor à grandeza do Senhor e os mosteiros, os quais sempre foram centros de difusão cristã e da cultura na Europa.

Ao longo dos séculos, vários homens e mulheres fizeram do trabalho um meio de glorificação dos prodígios do Senhor. Poderíamos nos estender por diversos parágrafos para falar sobre como o trabalho é uma das fontes da vocação e caminho perfeito para a santificação, dando pleno cumprimento com o que foi assumido na pia batismal.

Entretanto, é necessário que seja feita uma leitura do trabalho e sua importância para construção do bem comum a partir da doutrina social da Igreja. Num primeiro momento, ao se falar de “doutrina social da Igreja”, muitos se lembram da encíclica “Rerum Novarum” do Papa Leão XIII. Esse escrito do Pontífice nasceu num0 momento de grande agitação social, o qual clamava e reclamava uma resposta da Igreja de então. A “Rerum Novarum”, antes de ser uma elaboração contra um problema histórico como querem colocar, na realidade é um resgate de todo patrimônio cultural, histórico, intelectual e, sobretudo espiritual da Igreja com relação ao trabalho. Sendo que este patrimônio vem desde o Seu Divino Fundador até o atual Sumo Pontífice Romano, o Santo Padre o Papa Francisco.

Aprofundando a nossa reflexão, nós vemos a questão do trabalho como bem comum e como algo urgente, necessário e, mais do que isto, como um ponto sobre o qual temos de parar e nos debruçarmos para pensar o que realmente está acontecendo no mundo, o que realmente está acontecendo na nossa realidade.

A doutrina social da Igreja, com toda a tradição que ela possui, pode oferecer luzes e elementos para que nós possamos pensar saídas e vislumbrar alternativas. Enfim, pensar um outro modo que seja considerado como “Bem comum”, assim como nos pede de forma insistente o Papa Francisco.

Devemos situar a nossa realidade, neste contexto, de uma sociedade de mercado extremamente agressiva, individualista e sem senso ético de comunidade. Somente com isto poder-se-á ter um olhar emprestado da doutrina social da Igreja.

Para todos nós que tivemos formação durante o Século XX, em especial, para nós que fomos formados nos alicerces do Vaticano II, bem sabemos que a doutrina social da Igreja oferece elementos sólidos, rígidos e bem estruturados para um diálogo com a sociedade e com a vida acadêmica, a qual, em certa medida, encontra-se laicizada.

Na sua encíclica “Evangelium Gaudium”,[1] o Papa Francisco, no número 59, assim afirma de forma peremptória: “É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor.”

Esta forma simples, direta e objetiva do Santo Padre de se manifestar nos traz alguns questionamentos: ainda se tem sentido em falar de bem comum? Como o trabalho pode contribuir para a construção, elaboração e efetivação deste bem comum? Nossos governos, nossas instituições privadas e nossas instituições públicas estão a serviço de quem? Estas são as questões de fundo.

Assim como Nosso Senhor, o qual se encarnou e se fez história conosco, num determinado local e num determinado espaço de tempo, a Igreja também procura hoje atualizar sua mensagem por meio de sua doutrina social, a qual está em sintonia com este grande desafio contemporâneo da história de cada uma das filhas e dos filhos de Deus.

No mundo trabalhista de então, de quando surgiu a expressão burilada “doutrina social da Igreja”, com o Papa Leão XIII, desde então, tem-se que a doutrina social é uma tentativa, de dentro de uma realidade, de oferecer à humanidade seu acervo espiritual e teológico.

O ponto de partida fundamental que nós temos de ter é: o tema da economia, o tema do mercado e o tema da política. Ao falarmos de bem comum, não estamos inventando absolutamente nada. Este era um conceito que existia na economia antes de revolução industrial, antes do capitalismo, antes do marxismo ou de qualquer outra forma moderna e conhecida de economia para a sociedade. Os mercados já existem há muitos séculos. E eram instrumentos, acessórios, a serviço da sociedade, organizados e controlados por instituições políticas ou por instituições religiosas.

A partir da modernidade, a partir da erupção da economia de mercado capitalista, acontece uma inversão muito grande. Agora, é a organização social que está inserida no mercado. E a lógica do bem comum – que, praticamente, vinha até a modernidade, que era um dos pilares da sociedade e da política – aos poucos foi sendo substituída por outras lógicas, por outras racionalidades. E a principal racionalidade é a racionalidade econômica, aquela pensada e proposta pelos economistas liberais, principalmente, Adam Smith, pela lógica da acumulação material.

Neste mesmo sentido, é que o trabalho foi reificado, conforme vamos melhor expor adiante.

Então, toda a atividade da economia foi sendo direcionada da um único objetivo apenas: maximizar o lucro. E que este lucro fosse distribuído entre os investidores. A economia de mercado, não capitalista, é anterior a este sistema. A economia de mercado só se tornou capitalista depois.

Este primeiro elemento estará presente nas fontes do pensamento social da Igreja, principalmente, Santo Tomás de Aquino. O segundo elemento que temos de chamar atenção é o seguinte: até, mais ou menos, metade do Século XIX o conceito de bem comum era um conceito muito importante no discurso econômico.

Foi surgindo um outro conceito emprestado da filosofia e que foi invadido o terreno da economia e da política. O conceito de utilidade ou o utilitarismo. E, com isto, o trabalho foi sendo realocado como meio de obtenção de mais lucro, mais acumulação de bens. O pensamento econômico mais apropriado será aquele que ajuda a maximizar os lucros, os ganhos, a renda.

A primeira resposta está justamente na erupção da Revolução Industrial. E é na Revolução Industrial que vai surgir a doutrina social da Igreja, preocupada com o mundo do trabalho.

Esta Revolução Industrial que rompe na Inglaterra – que é o país do liberalismo, de John Locke, de Adam Smith – põe como urgência muito grande, a serviço do mercado, aumentar o capital, principalmente, o capital físico, as máquinas. É preciso que realize uma rápida acumulação de capital, para permitir que as empresas adquiram mais capital, mais máquinas. Era preciso que se retirasse e algum lugar, desviar o dinheiro para a construção de máquinas e de equipamentos. E tiraram dinheiro de algum lugar, de uma forma muito rápida, do outro instrumento do modo de produção, que são a força de trabalho, a mão de obra.

A exploração do trabalho, não apenas a exploração do trabalho dos homens, mas de mulheres e de crianças, isto é descrito em parágrafos inteiros da “Rerum Novarum”. Toda crueldade com que foram tratados os trabalhadores e trabalhadoras no início desta Revolução Industrial. A exploração cruel do ser humano.

Na visão, na lógica, da acumulação de riqueza e no princípio do utilitarismo isto é plenamente justificável. A economia vai deixando de ser uma atividade com outros fins, para voltar-se para este: a busca do lucro. Nem que para isto se sacrifique vidas humanas. Olhando para hoje: hoje, o tema do mercado está com muita força.

O que são mercados hoje? Podemos fazer esta pergunta. Aqueles mercados que surgiram a partir da modernidade, da Revolução Industrial. Pode-se ver os mercados como uma grande soma, como uma soma de interesses agregados de um complexo industrial financeiro empresarial poderoso, que exerce um poder de fato sobre Governos e instituições. Aquele mercado que surgiu lá atrás, hoje, invade, praticamente, toda a nossa vida.

Ele é um aspecto de um sistema maior, que é o sistema de mercado de capitais. Hoje, o sistema de mercado de capitais não é apenas economia, ele é um modelo de civilização. Não um sistema econômico. O sistema de mercado vai integrando a forme e o conteúdo de toda a civilização. Falar de bem comum, hoje, supõe esta compreensão crítica, ampla, macrossistêmica, desta realidade.

Desta forma, na sociedade tudo passa a ser movida a partir da lógica do lucro, outros fins vão desaparecendo do horizonte da sociedade e da economia. Neste momento, aparece uma citação muito forte do Papa Francisco, em seu discurso aos movimentos popular em Roma. O Papa Francisco perguntou: no mundo de hoje, diante desta realidade, quem governa? Quem governa, então, o papa responde: o dinheiro. Como governa? Com o chicote: Chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, da violência social, da violência militar, que gera uma espiral de violência, que parece que não termina nunca. Este é um pouco deste quadro que se desenha. Com isto, podemos começar a pensar o bem comum, diante deste capital financeiro tão poderoso.

Por fim, outro elemento, devemos uma outra ligação, vinculação, com a “Laudato Si”, de Papa Francisco, é a ideia de “Casa Comum”. Este sistema é um sistema extremamente dinâmico. Aqui, há uma mudança que está sendo identificada pelos sociólogos e economistas. Sempre se pensou que o capitalismo vive de um motor, um motor chamado: “destruição produtiva”. Atualmente, este motor mudou. O motor hoje é “produção destrutiva”. Esta é a lógica. Esta é a articulação do capital financeiro que se serve do capital produtivo. E onde chega, nas sociedades, na natureza, no meio ambiente, ele produz destruindo. Ele destrói não só o meio ambiente, mas também destrói, sobretudo vidas, descarta florestas, rios, empregos, comunidades, famílias etc.

Também a ecologia está absorvida pela economia, como diz “Laudato Si”. A crise é muito maior, ela é social, é política, é econômica, é ambiental. E as consequências imediatas, geradas por esta lógica, são identificadas na realidade, na vida dos pobres e na devastação da natureza. É difícil de se pensar algo bom para esta economia que já não se sustenta mais. É curioso pensar assim nesta sociedade, porque parece cada vez mais claro que este sistema abandonará uma crença que ele tem: que esta crença da produção destrutiva. É o dogma do crescimento. Este sistema não consegue não crescer. Ele não consegue não se expandir onde ele vai. E a sociedade continua acreditando que este sistema é sustentável, por mais incrível que possa parecer.

Este é o problema quando se maximiza os objetivos, outros são anulados ou são esquecidos. Com isto, vivemos, como diz o Papa Francisco, nesta espécie de tirania do invisível, que, às vezes, é virtual e atua de maneira unilateral. Um outro elemento que devemos nos atentar, na relação deste contexto, esta ideia de fundo que está presente na economia, na política, e que nós no Brasil estamos sentindo a aplicação destas ideias, de pouco tempo para cá.

Porque cada dia é mais difícil que se fale em justiça social, em bem comum, em igualdade? Porque tem uma ideia de fundo, um espírito, que pensa justamente o oposto do pregado pelo Papa Francisco. Muitos pensadores ajudaram a configurar esta sociedade.

Vamos citar apenas 02 aqui, que fecham todas as portas à ética, a pensamentos distintos, como a ideia de bem comum. O sistema atual foi construído, pensado, nos anos 40, em oposição ao Estado de Bem-Estar Social, proposto por John Maynard Keynes. É a ideia do “laissez-faire”.

Outro ponto, para o sistema em atuação, existe indivíduo, não existe uma sociedade. Desta forma, no mundo do trabalho, as pessoas não são vistas como seres dentro de um todo, mas sim como peças que podem serem substituídas a qualquer momento.

Há uma negação do conceito de bem público. O bem comum só faria sentido se de fato houvesse uma sociedade. Mas como não existe, se existem só indivíduos, como falar de bem comum? Esta ideia da mão invisível, da ordem natural, a ela é confiada a ordem da sociedade. Qualquer sociedade, qualquer Estado mais extenso, seria imoral, porque feriria as liberdades individuais. O Estado mais extenso seria um Estado que pensa a justiça social, que pensa o bem comum, como categorias filosóficas ou antropológicas.

No atual sistema, o Estado não é eliminado. Muito pelo contrário, ele se apropria do Estado, ele sequestra o Estado e muda a agenda do Estado. Hoje, o Estado se tornou um aliado. E um dos principais responsáveis pelo bem comum é o Estado. Se o Estado é minado, cortam-se as possiblidades de que o bem comum se concretize apoiado ou movido pelo Estado. Nos governos com este modelo, e nós estamos vendo isto cada vez mais claro no Brasil, é ajustar a economia e um país inteiro ao mercado.

Ajustar: quando se fala em ajuste fiscal, é disto que se trata. É ajustar a economia de um país todo ao mercado.  Este é o cenário. É a redução da política força do dinheiro. E, quando a política está reduzida à força do dinheiro, a presença da sociedade não consegue fazer presença no Estado. O Estado fica imune à participação da sociedade civil. Há uma corrosão muito grande desta dimensão pública. Não só no Brasil, mas em muitos outros países também.

Duas afirmações fundamentais nesta linha:

01ª- Ludwig von Mises: da Escola Austríaca. Ele diz o seguinte na obra “Ação Humana”: um dos fundamentos deste sistema econômico – além da propriedade privada e da exploração do trabalho – é a desigualdade social. A desigualdade de riqueza e de renda é uma característica essencial desta economia. Eliminar ou combater esta desigualdade social significa destruir este sistema econômico.

Então, ela não precisa ser só mantida, ela precisar ser aumentada, ser reforçada. Não é à toa os dados da Oxfam – outro banco mundial da ONU – assustam-nos, pois a cada dia a concentração de riquezas está no topo do 01%. É a aplicação de Ludwig von Mises.

Na economia de mercado, o ser humano é livre no sentido de que o governo não o obriga a renunciar à sua autonomia. Quer dizer, a pessoa é totalmente livre, a pessoa não pode ser submetida a outros objetivos e finalidades que o Estado impõe sobre a pessoa. P. ex., o compromisso com o bem comum ou com a justiça social. Não há lugar para políticas públicas de redistribuição em economias como as atuais.

Esta rejeição da ideia de bem comum. E o fundamento último colocado pelos pensadores do atual sistema é o seguinte: ideias de bem comum e de justiça social não têm nenhuma fundamentação metafísica ou teleológica, que possa sustenta-la. Quer dizer, quem pensa a justiça é uma sociedade, é a sociedade que vai dizer o que é justo e o que é injusto, o que é bom ou o que é mal. Não existe uma ideia pela qual a sociedade possa pautar-se para pensar uma organização e um projeto. É o contrário.

E Ludwig von Mises vai dizer na sua obra “Ação Humana”: sendo assim é inútil pensar o governo, pensar o Estado, a partir de valores e princípios imutáveis, pré-estabelecidos. Como a filosofia grega também pensava.

Para fecharmos a ideia, ele vai dizer o seguinte: vocês cristãos, os vossos princípios morais, seriam simplesmente desastrosos para a economia. Não se pode apelar à consciência das pessoas, para que elas, realmente, atuem na economia ou na política. Apele ao egoísmo, ao individualismo, porque, com isto, a economia funciona.

02ª- Friedrich Hayek: que foi de Ludwig von Mises, vai dar um passo perigoso. Políticas sociais fundadas na justiça ou no bem comum são incompatíveis com a democracia ou com a sociedade ou Estado de Direito. Viola as liberdades individuais.

E o outro motivo ele vai reforçar o motivo dado por seu professor Ludwig von Mises: não tenham um código de ética que fundamente a ideia de bem comum. O que possa obrigar o Estado a pensar políticas em função do bem comum. Questões sociais, preocupações sociais, são problemas individuais. Pertencem ao campo da moral individual. Se a pessoa está preocupada com a miséria, com a pobreza, isto é um problema da pessoa. Não do Estado, não da sociedade. Faça algo, mas segundo a consciência individual de cada, mas isto não deve ser pedido ao Estado. Para o atual sistema, é assim que funciona.

O Estado tem outras funções, que é garantir o funcionamento da economia, segundo a lógica de mercado capitalista na sua atual formatação. Hoje, parece que este sistema está chegando ao auge da sua implantação: da radicalização dos princípios, da cumulação material e da concretização da desigualdade social. O abismo está ficando cada vez mais fundo.

Tem sentido se falar em bem comum? Esta é a pergunta que se deve refletir. Desta forma, refletir sobre o bem comum é tarefa inadiável, nestes tempos difíceis, em que a busca de poder e de lucro domina as relações pessoais, domina o Estado e domina os povos.

É neste contexto que precisamos falar, como diz o Papa Francisco: a noção de bem comum tem um papel central e unificador de toda a ética social.

É a dignidade da pessoa e o bem comum, são estas duas questões – estes dois princípios – que deveriam estruturar toda a política econômica. É um discurso totalmente oposto ao doloroso modo de viver que enfrentamos hoje.

Por isto que quando o Papa Francisco lançou a encíclica “Evangelium Gaudium” e depois a “Laudato Si”, algumas revistas (p. ex., New York Times) foram tremendamente duras com ele. E, hoje, tem uma postura neoconservadora na sociedade é uma das mais fortes que a Igreja já enfrentou na história. Quando ele fala esta economia mata, é este tipo de economia aqui que ele está falando.

Quando o pensamento social da Igreja recupera, agora, outra vez, com tanta força, como o Papa Francisco está recuperando a ideia de bem comum, ela tenta resgatar algo que a Igreja já carrega na sua tradição. Vamos nos apoiar em apenas 02 autores que são referências clássicas: 01º- Santo Agostinho; 02º- Santo Tomás de Aquino. Este conceito está muito forte, muito presente, nestes autores.

Santo Agostinho tem um vocabulário bastante amplo neste assunto. A expressão “bem comum” é empregada, p. ex., em Santo Agostinho para traduzir múltiplas realidades públicas, múltiplas expressões. P. ex., a ideia de “Res”pública.

Pensando nesta possibilidade da existência de um povo com “res-pública”, Santo Agostinho vai se apoiar num grande pensador, Cícero, o qual já defendia um povo não é apenas um conjunto de seres humanos reunidos de qualquer jeito, não são átomos espalhados por ai, que é o que pensa o sistema imperante. Mas o povo é uma grande assembleia (ecclesia), uma assembleia de pessoas associadas entorno de algo comum, entorno de objetivos comuns, no que diz respeito à convivência social juntas. Quase que uma parceria de pessoas entorno do bem comum.

Esta afirmação de Cícero vai ser enriquecida por Santo Agostinho na sua teologia da caridade (“a caritas”). Com isto, Santo Agostinho vai buscar fundamentação teológica. Santo Agostinho vai pegar esta proposição e vai superar esta ideia de Cícero no seguinte sentido: “a caritas” convida nos convida a nos fixar não apenas na sociedade em si, é necessário um elemento da filosofia ou da teologia, não transitório. Porque as sociedades são transitórias, não imutável. Pensar o bem comum da sociedade como algo mais universal. O universal mais do que o particular.

A partir disto, Agostinho vai fazer a referência à Cidade Eterna. Com esta categoria de caridade, Agostinho vai oferecer 02 enfoques sobre o bem comum:  a) Está direcionado para a cidade dos homens, a cidade terrena; b) E o outro para a Cidade Eterna, onde ele vai identificar o Sumo Bem Comum.

Esta intuição parece bastante importante se for considerado que o Bem Comum aparece como recurso teológico-moral, capaz de combinar estas 02 tensões: de um lado a possibilidade de viver a radicalidade da caridade, do mandamento do amor, na sociedade, de uma maneira concreta, e que a maneira de concretizar esta realidade depende de algo anterior para Agostinho, que é a experiência do Amor Sumo, do Amor de Deus, o fundamento.  De outro lado, esta capacidade de interagir em termos de amizade, de reciprocidade, colaboração, numa sociedade que busca fins, finalidades comuns.

Esta caridade de amizade vai fundamentando as relações entre os cidadãos e uma comunidade política (na polis). Tal amizade – esta caridade – é a base de promoção para o bem comum. Agostinho como uma das condições para que ela ocorra.

Ainda que a organização da Cidade Terrena não seja capaz de promover a comunhão por excelência, própria do Sumo Bem de Deus, ela pode ajudar, pode proporcionar a vida comum dos cidadãos. Através da geração de bens, que todos possam beneficiar-se.

Desta forma, esta relação entre Sumo Bem e bem comum se entrelaçam em Agostinho, de tal modo que a busca do segundo colabora na compreensão mais profunda do primeiro. E a compreensão teológica do primeiro impulsiona a busca do segundo numa sociedade histórica, que vai configurando a Cidade Terrena, através de estruturas sociais, de mecanismos, que garantam os bens, para que as pessoas possam viver de maneira humana, a saúde, o alimento, a moradia, a educação, a cultura, a religião etc.

Ele fecha um pouco esta ideia dizendo que não há outra maneira da paz no mundo ser encontrada. A paz é alcançada quando estes bens envolvidos pela caridade e pela amizade são garantidos.

Santo Tomás de Aquino avançando nesta reflexão vai dar uma contribuição muito interessante. Santo Tomás dizer que o termo “bem” é predicável de muitas maneiras. Ele vai identificar 03 maneiras de predicar o “bem comum”:

a) Bem predicavelmente comum: é o bem predicado à toda pessoa. P. ex., a essência humana, a natureza humana, somos humanos.

b) Bem causalmente comum: este bem é partilhado por todos e pertence a todas as pessoas. P. ex., a paz social, uma ordem social, a partilha pela felicidade por ter vencido a batalha ou conquistado como sociedade algo importante.

c) Bens comuns de utilidade: estes estão ligados à Justiça distributiva. P. ex., tema da água, da saúde, do alimento etc.

Estes modos de compreensão encontram-se em Santo Tomás na sociedade. P. ex., a felicidade, que seria um bem predicavelmente comum, que é desejada por todos, a eudaimonia, é obtida como elemento da organização social, que é o bem causalmente comum. Que, por sua vez, é sustentado por outro que é o bem utilidade, que é a justa distribuição dos bens uteis, da utilidade para a vida.

Ou seja, desta compreensão da pessoa humana como ser de relação, nestes 03 tipos de bens predicáveis, depene toda ideia de bem comum. Isto é possível porque todo ser humano tende para a vida em sociedade. No pensamento de Santo Tomás, há esta tendência natural para o bem, ordenados ao bem.

Então, estas duas dimensões de Santo Tomás: a) o bem transcendente ou bem sobrenatural; e b) o outro o bem imanente ou bem aqui. A primeira diz respeito a Deus. A segunda diz respeito às relações sociais baseadas na Justiça e na vida virtuosa.

O bem último a ser buscado e contemplado é a Verdade. É a visão beatífica, porque a Verdade Absoluta é Deus, porque de Deus depende o bem e todas as coisas vêm de Deus. É o Sumo Bem por natureza. E o bem comum imanente – relações sociais, justiça e virtude – alcançados na vida em comunidade, este é o bem por excelência mais elevado. E a condição para também alcançar os outros bens, porque a sociedade – diz Santo Tomás – é uma relação.

Vemos como tudo que temos e que somos sempre é para o outro, para o crescimento de todos juntos, pois este pensamento perpassa toda a história da Igreja e nos seus pensadores, os quais sempre fieis ao Seu Divino Senhor e Salvador sempre procuraram manter a comunidade unidade unida para a realização do “Bem Comum”, assim como a Trindade, unida indivisa e substancial, mantém-se unidade desde sempre e por todo o sempre, o ser humano, o qual foi criado à Sua imagem e semelhança, também tem necessidade de aglutinar-se com outros, para que só assim possa cumprir a sua missão assumida no batismo e, para que o trabalho, como uma das várias formas de glorificação do Senhor, possa ser caminho para a santificação individual e coletiva. Para que em tudo seja Deus glorificado.



Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro