Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/11/2018

21 de Novembro de 2018

Santo súbito

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16/10/2018 12:28 - Atualizado em 16/10/2018 12:48
Por: Carlos Moioli

Santo súbito 0

Na festa dos santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, em 29 de setembro, às 8h05, monsenhor José dos Santos Almeida, pároco emérito da Paróquia São Tiago, de Inhaúma, fez sua páscoa definitiva. Ele tinha 83 anos e 59 anos de sacerdócio.

Nascido na cidade fluminense de Trajano de Moraes, foi formado no Seminário Arquidiocesano de São José, onde também foi professor, confessor e diretor espiritual. Exerceu o ministério em várias comunidades paroquiais; em São Thiago de Inhaúma, foi pároco por 25 anos. 

A missa de exéquias, realizada no dia 30 de setembro – Dia Nacional da Bíblia –, que contou com a presença de muitos sacerdotes, foi presidida pelo Cardeal Orani João Tempesta. Na homilia (veja página ao lado), o arcebispo do Rio confirmou que ele morreu em fama de santidade, e que poderá ser aberto um processo diocesano de beatificação, respeitando o prazo de cinco anos de sua morte. Dom Orani também disse que se for da vontade de Deus, ele poderá chegar à honra dos altares, como modelo para o clero. 

Ainda antes de ser sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, na quadra da Irmandade São Pedro, muitos sacerdotes, paroquianos e fiéis que o conheciam se manifestaram nas redes sociais, o chamando de ‘santo súbito’ (‘santo já’), e compartilhando um santinho como “O santo de Inhaúma”.

Também começou a ser difundido o seu testamento espiritual, que são máximas de Santa Teresa de Jesus, e que foi apresentado pelo padre Alexandro Tarquino da Silva durante a missa de exéquias. Além de ser seu sucessor, padre Tarquino foi quem cuidou como filho de monsenhor José, durante todo o tempo em que esteve doente.

 
Quem foi
Monsenhor José dos Santos Almeida nasceu no dia 16 de junho de 1935 em Trajano de Moraes, Estado do Rio de Janeiro. O início de sua caminhada na fé deu-se em sua cidade natal na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, onde foi batizado em julho de 1935. Recebeu a 1ª Eucaristia e o santo óleo do Crisma. Também em sua primeira comunidade paroquial auxiliava no serviço do altar como coroinha, começando aí seu despertar para a vida sacerdotal.
 
Veio para o bairro de Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro, no início da década de 1940, e passou a ajudar padre Alicio Ribeiro da Mota, primeiro pároco da Paróquia de São José, como coroinha. Nesta época, a capela, que pertencia à Paróquia São José, era assistida pelo padre Alicio, sendo auxiliado no altar pelo jovem José dos Santos, que sentia crescer sua vocação para o sacerdócio. Mesmo já tendo feito sua 1ª Eucaristia, participava das aulas de catequese ministradas por Maria Pureza, na Capela Nossa Senhora do Rosário de Pompeia.

Entrou para o Seminário Arquidiocesano de São José em março de 1947. Ordenou-se diácono em março de 1959, e em 29 de junho de 1959 recebeu, pelas mãos de Dom Jaime de Barros Câmara, o Sacramento da Ordem. No dia 5 de julho de 1959, celebrou sua primeira missa na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia.

Durante sua vida sacerdotal, passou pelas paróquias de Cristo Rei, em Vaz Lobo; Nossa Senhora da Conceição, no Engenho Novo; Nossa Senhora de Guadalupe, em Inhaúma; Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças, em Oswaldo Cruz; Cristo Ressuscitado, em Padre Miguel; Santa Sofia, em Cosmos; Nossa Senhora Aparecida, em Cosmos; e São Tiago, em Inhaúma, permanecendo como pároco desta última de janeiro de 1987 a novembro de 2012.

De 1964 a 1976 trabalhou no Seminário Arquidiocesano de São José como diretor espiritual e professor.
 
Carlos Moioli



‘Um sinal de santidade para o clero’

Agradecemos a Deus pela vida e pela fidelidade de monsenhor José dos Santos Almeida, pedindo que Deus o acolha em seu reino. Para nós, é como se nos despedíssemos de alguém muito querido, não só dos familiares e amigos, mas de toda a Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Monsenhor José foi um dos sacerdotes ordenados por Dom Jaime de Barros Câmara, que passou pelo episcopado de Dom Eugenio Sales, de Dom Eusébio Scheid e pelo meu, e serviu na diversidade das paróquias, do seminário, deixando, por onde passou – como padre, diretor espiritual e pároco – sinais de homem entregue a Deus.

Desde sua infância, viveu intensamente uma vida de profunda espiritualidade e, por isso mesmo, soube como ninguém viver uma vida de pastor, dedicada ao povo de Deus, entregue à missão, com todas as consequências da evangelização. Suscitava nas pessoas ao seu redor –leigos e leigas e também nos vocacionados – o chamado para que pudessem continuar e ser firmes na fé.

No Dia do Senhor, quando recordamos a certeza da vida – o Senhor morreu e ressuscitou, está vivo no meio de nós e, com Cristo, nós também ressurgiremos –, temos a certeza de que, com Cristo, também ressuscitamos, a cada dia, de nossas mortes, de nossos pecados, mas, também, no fim dos nossos dias, contemplaremos a face de Deus.

Essa é a nossa oração: para que assim aconteça como monsenhor José, que contemple a face daqu’Ele a quem ele serviu durante quase 60 anos, como padre, neste tempo e neste mundo.

Ao mesmo tempo, rezemos para que seus exemplos permaneçam e ajudem não só os familiares, como também a comunidade paroquial e toda a Igreja.

Sua vida e seu exemplo de homem de Deus permanecem. Ouso dizer é provável que, como homem santo que foi, realmente venha a ser um candidato, um sinal de santidade para o clero. Ele viveu intensamente a vocação sacerdotal, o presbitério, numa vida de comunhão, passando pelas adversidades, situações pré e pós-conciliares, as tensões da sociedade e da Igreja, mas permanecendo sempre com sua espiritualidade, servindo aos irmãos onde quer que a obediência o enviasse.

Ele foi alguém que soube se preocupar com todos, e isso faz toda a diferença. Nos lugares por onde passou, organizou trabalhos caritativos: na preocupação com a transformação social, a evangelização, a promoção das pessoas e a administração dos sacramentos.

Nos últimos anos, a doença, aos poucos, foi intensificando seu calvário, mas sempre com aquela peculiar tranquilidade, ele realizou a mesma configuração a Cristo na cruz.

Neste dia em que celebramos o Dia Nacional da Bíblia, e que também encerramos o Mês da Bíblia, temos na Palavra de Deus um olhar sobre o exemplo de monsenhor José como homem de Deus.

A leitura da Carta de São Tiago fala de situações de injustiça, de exploração; fala de algo impossível, como enferrujar o ouro e a prata, em se tratando de acumular sem necessidade.

Monsenhor José chegou ao final de sua vida na pobreza evangélica, vivendo e servindo com generosidade. Não precisou fazer testamento; não havia necessidade. Não tinha o que dizer porque não reteve nada para si.

Quem conheceu monsenhor José de perto sabe muito bem do seu despojamento, da pobreza da sua vida, de como ele se alegrava nas pequenas coisas de cada dia, na simplicidade.

Diante de um mundo em que persegue vorazmente tanto a riqueza quanto o poder, ele nos deu esse exemplo e sinal, como alguém que viveu o despojamento e, com simplicidade, fez de seu sacerdócio um serviço.

Perante os formalismos e as disputas de poder – conforme a liturgia do dia nos apresenta – vemos que monsenhor José por onde passou, fosse qual fosse a comunidade paroquial, serviu com generosidade e disponibilidade, sem ambicionar cargos ou posições, a não ser a de ser um bom padre, que se santificasse a cada dia no Senhor.

Ao mesmo tempo, viveu uma vida de conversão – conforme o Evangelho – sabendo renunciar a tudo aquilo que a mão, o pé e o olho podem usar para nos levar a pecar, mas sabendo, também, que quem faz algo de bom – como, por exemplo, dar um copo d'água por causa do Senhor – tem merecimento no Reino dos Céus.

Monsenhor José também experimentou a vida de conversão genuína, através dos seus dias, nesse despojamento sincero, nessa generosidade para com os outros.

No contexto que vivemos hoje – o Dia Nacional da Bíblia –, monsenhor José é um presente para nós. Ele é alguém que, encarnando a Palavra de Deus, nos revela que nesse mundo que é possível viver na simplicidade, no despojamento, no amor ao próximo, na fidelidade aos seus compromissos, no amor e no sentir com a Igreja.

Nos 84 anos de vida e 59 de sacerdócio, ele procurou deixar exemplos que permanecem de uma vida que se torna luz para todos nós. Devemos conservar na memória e em nosso coração.

Pedimos a Deus que, se for do Seu plano, da Sua vontade, o seu legado possa se manifestar com força, ainda mais na Igreja do Rio de Janeiro, onde monsenhor José viveu no escondimento e na fidelidade ao Senhor.

No dia 1º de outubro, celebraremos Santa Teresinha, alguém que também viveu no escondimento. Todavia, quis a Divina Providência que aparecesse a Pequena Via. Vemos, também, monsenhor José, que soube viver essa simplicidade no dia a dia, de um padre que, sem grandes dificuldades, viveu para o povo de Deus nas várias situações, porque, se colocando à disposição da Igreja, onde quer que fosse necessário, sem querer influenciar, sem querer mudar as coisas, simplesmente serviu ao povo de Deus.

Este e outros são exemplos que permanecem, e eu ainda diria mais: são exemplos que devem ser ainda mais anunciados. Peço que, se for da vontade de Deus, isso venha a acontecer no futuro. E possa ser um sinal, para toda a Igreja do Rio e do mundo, de que esse homem de Deus assim viveu: como um sinal para as vocações e para os sacerdotes.

Temos gente santa na Igreja nas diversas situações. São adolescentes, jovens, casais, religiosas e também padres. Necessitamos desses sinais e bendizemos a Deus pelos dons que monsenhor José deixou para cada um de nós. São dons e sinais que permanecem no coração de cada um e que merecem, ainda mais, serem visibilizados.

A Palavra de Deus que hoje ouvimos mostra-nos que é possível viver anunciando com a própria vida. Porque a vida fala alto. E, portanto, é importante que se anuncie com as palavras, mas, sobretudo, com a vida.

Por isso mesmo, nos seus trabalhos, nas paróquias por onde passou, nas várias comunidades, vivenciando a pastoral de cada dia, esses sinais vão aparecendo cada vez mais, dando significado ao que é colocar em prática a Palavra do Senhor. Isso faz com que as pessoas sejam transformadas, o povo seja evangelizado, conheça e veja o rosto do Senhor Jesus Cristo. Bendita a paróquia, bendita a arquidiocese, bendita a família que pôde compartilhar da vida de monsenhor José.

Temos certeza que, depois dessa longa caminhada aqui entre nós e nos seus últimos anos na Paróquia São Tiago, onde exerceu por 25 anos o ofício de pároco e, mais tarde, pároco emérito, monsenhor José volta para casa do Pai proclamando a bondade e a misericórdia de Deus, deixando entre nós sinais de quem, em vida, procurou o Senhor acima de tudo.

Celebramos esta missa, portanto, na certeza da vida que não termina com a morte, mas que continua na eternidade. Um dia, no final dos tempos, com Cristo, nós também ressurgiremos. Isto é o que dá sentido a tudo aquilo que fazemos no dia a dia.

Ele acreditou em Jesus Cristo, aceitou-O como Senhor da própria vida, viveu de acordo com o Evangelho e, por isso, agora, repousando dos seus trabalhos, do seu Calvário nos últimos anos, devido à sua doença, entra na paz do Senhor e contempla a face do Pai.

Por onde passou e pôde estar presente, deixou marcas indeléveis, de modo que a dor é grande, mas grandes são também nossa confiança e esperança no Senhor.

Ao sepultarmos seu corpo, pedimos a Deus que o acolha no céu. Pedimos ao Senhor que o seu exemplo permaneça em nossas mentes e corações, seja sinal de incentivo e o impulso para que cada um de nós leve com intensidade, alegria e disponibilidade a nossa vocação.

Que o seu exemplo de vida – como alguém que, buscando o Senhor, construiu fraternidade na comunidade – seja, também, modelo para os jovens de hoje procurarem, cada vez mais, o sacerdócio ministerial, sem medo de entregarem suas vidas a Jesus Cristo.

Monsenhor José foi fiel até o fim de sua vida porque até o fim buscou o Senhor. Quanto a nós, temos a certeza de que a semente que é colocada na Terra não fica só nisso: para além da Vida, já na eternidade, brotará para a vida ressuscitada. Que sua alma repouse em paz.

Cardeal Orani João Tempesta, O Cist., arcebispo do Rio de Janeiro




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