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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 02/04/2020

02 de Abril de 2020

‘É preciso ter proximidade, menos exclusão e mais acolhimento’

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02 de Abril de 2020

‘É preciso ter proximidade, menos exclusão e mais acolhimento’

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22/02/2020 00:00
Por: Redação

‘É preciso ter proximidade, menos exclusão e mais acolhimento’ 0

Há muitos anos, a Catedral Metropolitana de São Sebastião mantém um trabalho de assistência com moradores em situação de rua, já que boa parte deles permanece no centro da cidade. Na gestão do atual pároco, cônego Cláudio dos Santos, teve início o projeto “Café que Sustenta”, com a finalidade de continuar a saciar a fome, mas também oferecer uma oportunidade de recuperação.

“Desde que Dom Orani me chamou para a missão de servir o povo de Deus à frente da Catedral, ele me pediu para que a Igreja-mãe da arquidiocese fosse uma casa de acolhimento. Essa dinâmica de acolhimento se estende de modo especial aos irmãos e irmãs que vivem em situação de rua, que, na sua grande maioria, vivem no centro da cidade. Muitas vezes, as pessoas que trabalham ou transitam na região não consegue ‘enxergá-los’. Nossa missão como Igreja em ‘saída’ e ‘samaritana’ deve ir ao encontro dessas pessoas e procurar amenizar o sofrimento que passam”, disse cônego Cláudio.

O projeto oferece a oportunidade de acompanhamento social, com atendimento individual, e quando necessário, eles são encaminhados para instituições parceiras, como nos casos de internação por dependência química.

“O trabalho com os moradores em situação de rua vem sendo realizado há mais de 20 anos pela Pastoral de População de Rua da Catedral. Nos últimos dois anos, procuramos incrementar o atendimento através de uma assistência social com o projeto ‘Café que Sustenta’. Além do café que é distribuído todas as manhãs de domingo para cerca de mil pessoas, também procura resgatar a dignidade das pessoas, retirando-as do mundo das drogas, dos vícios, dando a oportunidade de uma restauração física através das parcerias com as casas de acolhimento em nossa arquidiocese”, disse.

Cônego Cláudio destacou ainda que o trabalho tem dado bons frutos, que conta com o empenho de dezenas de voluntários. “A Catedral é a Igreja do arcebispo, e deve ser uma referência da presença de Deus para os irmãos que passam por necessidade”.

Acolhimento
Segundo o coordenador do projeto, Wagner Ramos, o diferencial do “Café que Sustenta” está em ir além das necessidades básicas, trabalhando o acolhimento e a recuperação das pessoas.

“A maior necessidade da pessoa que está na rua é o acolhimento, que vai muito além de uma alimentação, um vestuário ou um cobertor. Precisamos suprir essas necessidades básicas, porém a pessoa tem que ser acolhida e reconhecida, alguém que veja nela uma pessoa, um filho de Deus, criando um vínculo de proximidade. A partir desse vínculo conseguimos muito mais resultados, conseguimos trabalhar a consciência, levar a pessoa a querer a mudança de vida porque ela percebeu que é capaz de mudar. É preciso ter proximidade, menos exclusão e mais acolhimento”, disse.

Para Wagner, a dependência química é um dos principais motivos para as pessoas irem morar nas ruas.

“Os motivos pelos quais as pessoas vão parar nas ruas são variados, desde pessoas que perderam o trabalho e não conseguem pagar o aluguel, não tendo uma outra opção, sem apoio de uma família, e acabam indo para a rua. Muitas pessoas estão na rua por esses motivos, muitas outras em consequência dos vícios. Atendemos muitas pessoas, e perguntamos o motivo de estarem na rua: elas falam que é conflito familiar. Quando aprofundamos o atendimento, nas entrevistas vemos que aquele conflito familiar foi gerado pelas drogas, por uma situação de desemprego que também pode ser gerada pelo uso das drogas e, consequentemente, isso gera o conflito familiar”.

Ele explicou que, além de levar as pessoas a essa situação, a dependência também é um dos fatores que mais dificulta a recuperação.

“Minha experiência pessoal com o projeto “Café que Sustenta” é uma mistura de sentimentos. Por um lado, a realização em ver que o projeto alcança aquelas pessoas que estão à margem da sociedade, disponibilizando para elas uma oportunidade de mudança. Ao mesmo tempo, tenho um sentimento de impotência, por todas aquelas pessoas que querem sair das ruas e querem mudar de vida, mas não conseguem devido ao vício das drogas, que hoje é o que mais assola a população em situação de rua. É um trabalho que me instiga a querer saber mais e estudar um pouco mais sobre a questão da dependência química, para poder ajudar essas pessoas”, destacou Wagner.

Números
Os números do projeto “Café que Sustenta” no período de 17 de abril de 2018 a 5 de novembro de 2019 são: 302 pessoas receberam orientação social individualizadas, sendo três a quatro atendimentos por pessoa; 32 pessoas receberam certidão de nascimento; 58 pessoas receberam acompanhamento, mais cestas básicas, ou auxílio para retornarem para casa; 51 pessoas passaram pelo processo de coaching e saíram da rua sendo encaminhadas para casa de recuperação; e houve quatro grandes ações sociais em parceria com comunidades terapêuticas e órgãos públicos.

Nova vida
Uma das histórias bem sucedidas nesses dois anos do projeto é a do angolano Ernesto João Tchindambo, que está no Brasil há 26 anos. Ele já foi microempresário e tinha uma boa vida social, até acabar vivendo nas ruas, por causa de dependência química.

“Depois de muito sofrer, cheguei a uma altura que não dava mais e tinha que escolher: ou eu ou as drogas, pois eu estava me acabando com aquilo. Aí eu tomei a decisão: fui à Catedral e falei com o padre, que sugeriu que eu me internasse. Hoje, acho que essa é a melhor decisão que eu tive”, disse Ernesto que, após 12 anos como usuário de drogas, foi um dos primeiros atendidos pelo “Café que Sustenta”, sendo encaminhado para tratamento.

Ernesto fez seu tratamento na Comunidade Católica Maranathá, sendo internado por nove meses: três em Sepetiba e seis em Madureira. Ele disse que as visitas e o acompanhamento do projeto durante a internação foram fundamentais para sua reabilitação. “As visitas foram muito importantes, pois os primeiros três meses foram muito difíceis para mim. Eu queria sair, mas vocês foram lá e me deram uma força, e algo que não me esqueço até hoje é que o Wagner me disse que as coisas são resolvidas no tempo de Deus e isso me ajudou bastante. Lembro como se fosse hoje, aquilo me fez ficar”.

Após concluir o tratamento, Ernesto voltou ao projeto, mas como colaborador. Hoje, ele coordena os banhos que são oferecidos às pessoas em situação de rua, de segunda a sexta, em parceria com a Paróquia São José da Lagoa, no bairro da Lagoa, que cede um trailer com banheiros masculino e feminino.

“O fato de eu estar ajudando os irmãos que estão passando pela mesma situação que eu passei faz eu me colocar no lugar deles. Eu gosto de trabalhar nesse espaço e de fazer o que eu faço. Eu só tenho a agradecer a honra que eu tenho de trabalhar nessa catedral com os moradores de rua no projeto “Café que Sustenta”. Esse trabalho tem sido de grande valia para o meu tratamento. A cada dia tenho me superado, vendo a situação em que eu estava e a situação em que vejo meus irmãos. Meu testemunho tem ajudado eles, e eles têm me ajudado muito também”, disse Ernesto.

Atendimento
Os atendimentos aos moradores em situação de rua ocorrem durante a semana, a partir das 7h30, na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, situada na Avenida Chile, 245, no Centro.

Entrevista: Carlos Moioli
Texto: João Guilherme Novais


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