Arquidiocese do Rio de Janeiro

30º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 02/04/2020

02 de Abril de 2020

Um século marcado pela fé

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

02 de Abril de 2020

Um século marcado pela fé

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

23/03/2020 12:53
Por: Redação

Um século marcado pela fé 0

As Vargens, a Gripe Espanhola, mortes e muita fé...

O ano de 1918 (século passado) entrou definitivamente para a história do Brasil e das Vargens em função da Gripe Espanhola que ceifou a vida de mais de 35.000 pessoas no país e em dois meses mais de 12.700 pessoas no Rio de Janeiro. Fala-se que na região das Vargens morreram entre 180 a 200 pessoas para uma população que era muito pequena. Naquela época o problema é que pouco se sabia sobre a Gripe Espanhola e a doença chegou de surpresa, ninguém estava preparado para isso.

A doença já se instalara na Espanha e na Europa, mas aqui não se deu valor pois a distância do continente europeu era muito grande.
Contrariando essas previsões otimistas a gripe penetrou no Rio de Janeiro a partir de setembro de 1918, quando um navio brasileiro que fazia patrulhamento no Atlântico Sul, ao lado dos aliados na 1ª Guerra Mundial, voltou ao Brasil. Morreram mais de 100 marinheiros que estavam a bordo.
O navio inglês Demerana também esteve no Nordeste em 1918 e a gripe se espalhou
rapidamente por lá.

A Gripe Espanhola nas Vargens
Devido ao porto do Rio de Janeiro, onde chegavam navios de várias partes, a gripe ficou fora de controle - que acabou chegando às Vargens. A doença matava rápido e não havia como enterrar os mortos, já que a doença era contagiosa e esses 200 moradores que morreram foram enterrados em valas coletivas pois não havia como fazer diferente. Tinha gente morrendo todo o dia, parece que a população das Vargens seria dizimada e não sobraria ninguém.

Por outro lado, o Cemitério de Piabas (Pontal) era longe do centro das Vargens e não havia condições de levar rapidamente para serem enterrados lá, nem havia espaço dentro do cemitério que foi construído em 1732.

Dona Santinha
Quem era dona Santinha? Sogra do doutor Zequinha Baltar e que tinha muitas posses em Vargem Grande, puxou para si toda a responsabilidade, visto que a população era de pessoas simples e precisavam de alguém para comandar as ações para acabar com essa mortandade. Famílias inteiras estavam morrendo e as Vargens poderiam virar áreas “fantasmas” ou “malassombradas”.

O poder da fé e São Sebastião
Sem ter muito o que fazer, pois não havia remédios, restava o isolamento. Era só ficar esperando morrer mais gente. Talvez em função de sua religiosidade, dona Santinha teve uma idéia brilhante: resolveu “enfrentar” a Gripe Espanhola. Não sabemos se foi caso pensado ou por desespero, quis juntar as mulheres da região das Vargens que ainda não haviam sido afetadas.

Fez uma reunião em sua casa e as mulheres lá foram sem saber o que dona Santinha estava planejando e se iria tirar um “coelho da cartola”.
Dona Santinha era uma pessoa controversa: uns gostavam e outros não, nem o genro doutor Zequinha – médico, pai dos pobres, se dava com ela. Enfim, o problema é que ela achava que o doutor Zequinha Baltar tinha dado o “golpe do baú” ao casar-se com a filha dela, mas era ignorância.
Ele tinha mais posses do que ela e ainda era um médico famoso. As senhoras também não se davam muito com Santinha, porque muitas trabalhavam para ela nos campos. Era muito difícil de lidar com ela por conta da grosseria com os empregados e do seu mal humor.

O fato é que a reunião começou com a reza do terço piedosamente, onde todas rezaram de joelhos, acenderam velas, mas as senhoras que estavam ali acharam que nada ia acontecer.

Antes dessa reunião tinham morrido duas pessoas da vizinhança e todas estavam com medo.

Bem, com dona Santinha no comando, pediu para que todas ficassem em silêncio para escutar o que ela tinha a dizer:
“Vocês sabem que a maioria destas terras pertencem a minha família. Se a partir de amanhã não morrer mais ninguém, vou doar um terreno ali no largo e vou construir uma capela em honra a São Sebastião!”.

São Sebastião também era velho conhecido. Desde o descobrimento do Brasil ele habitava a proa das caravelas e já era famoso protetor contra doenças infectocontagiosas. As senhoras não eram muito chegadas a dona Santinha, mas com uma atitude dessas tinham mais é que acreditar e apoiar.

Já no dia seguinte de tarde chegou um caminhão com material: madeira, cimento, tijolos
maciços, operários etc. Penduraram uma cruz na amendoeira, que hoje ainda dá sombra em frente à igreja.
O fato é que realmente não morreu mais ninguém nas Vargens fruto da gripe espanhola. A construção da capela continuou e esse milagre, segundo as senhoras que estiveram na reunião, se deve a São Sebastião. Dias depois que começou a obra, chegava à imagem de São Sebastião, carregada pelo doutor Zequinha Baltar. Enquanto os operários trabalhavam de dia, as senhoras iam à noite para o local com velas rezar o terço junto com os sobreviventes e até com os homens.

Dona Santinha, não sei se para “tirar” onda ou para incentivar as pessoas a rezar, dizia: graças a São Sebastião já obtive muitas graças.
Ele foi soldado e foi guerreiro, protetor contra a peste e doenças infectocontagiosas. A capela, como não podia deixar de ser, foi em honra a São Sebastião, que nas Vargens é venerado e aqui chegou há 100 anos!
O poder da fé falou mais alto!

Nova promessa
Segundo o pároco atual, padre Walter Vieira Neto, há cem anos, uma senhora chamada Santa, frente à epidemia da peste espanhola, prometeu construir nas Vargens uma capela dedicada a São Sebastião, caso as mortes parassem, pois morreram muitas pessoas nas Vargens e no Rio de Janeiro. Agora, ele faz uma nova promessa.

“Cem anos depois, frente à pandemia do coronavírus, que devasta o mundo e tira a paz do Rio de Janeiro e a tranquilidade do povo das Vargens, eu e meu povo prometemos edificar uma imagem dignamente ornada de São Sebastião, junto à arvore que está em frente à paróquia. Árvore que está exatamente cem anos ali, visto que a capelinha de São Sebastião se tornou a Paróquia de São Sebastião! Caso um dos países do mundo descubra a vacina ou que a peste deixe de fragelar o mundo, as Vargens e, em especial, o Rio de Janeiro, edificaremos para maior honra e glória de Deus a augusta imagem, para selar que só Deus é o único Senhor da vida e que tem poder sobre o mundo inteiro”.

“Rogai por Nós beatíssima Virgem Maria e mártir São Sebastião”, completou padre Walter Vieira, que assumiu o pastoreio da Paróquia São Sebastião, de Vargem Grande, no dia 14 de janeiro de 2020.

Texto: Delfim Aguiar Almeida
Edição: PASCOM Paroquia São Sebastião – Vargem Grande


 
Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.